MÊS DE ANIVERSÁRIO DE COTIA – 3 CONSTRUÇÃO DO SÉCULO 17 – O SÍTIO DO MANDU

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Antonio Melo, especial para o Cotiatododia

Como vimos, Cotia era uma aldeia, que virou povoação e depois Freguesia. Ensina o mestre João Barcellos (Cotia, uma história brasileira) que, cerca de 1703, “a então aldeia da Capela de Nª Sª do Monte Serrat d´Acutia, sofre uma alteração geográfica: do sertão carapochuybano (carapicuibano) passa para o sertão itapecericano, tendo o rio d´Acutia como referência e esquina histórica.”

E ainda é o ilustre historiador que nos dá a informação de que Cotiua – Kuty – já era cobiçada muito tempo antes:

“Para se ter uma idéia das jogadas político-administrativas do processo de colonização do Brasil, em 1580, enquanto a Espanha tomava o Trono português, os colonos de além-mar tomavam medidas para se protegerem: assim, em 12 de Outubro de 1580 é criada a “Sesmaria dos Índios do Pinheiros e Uraray”. O que significa tal ação? Que as propriedades dos grandes colonos e dos jesuítas, e muito particularmente as propriedades de Affonso Sardinha (o Velho), grande financiador da Societas Jesus [SJ], estavam a salvo das investidas dos espanhóis. A denominação “sesmaria dos índios…” é, aqui, um mero detalhe do jogo colonial nas suas canetadas administrativas. O vasto território demarcado alcançou os objetivos coloniais: colocar sob jurisdição reinol as aldeias nativas [M´Baroery, Koty, Carapochuyba, Ibituruna, Jandira, Itapevi, Itapecerica, Ururay, Pinheiros, etc., etc.] que interessavam, também, aos “senhores da terra”.

Antes de avançarmos para a Cotia pós-Freguesia, cumpre lembrar a praticamente única obra arquitetônica que nos resta daqueles tempos do século 17: o Sítio do Mandu.

Aqui, recorremos à Wikipedia, que nos dá todos os dados necessários para entendermos a importância histórica do casarão ainda hoje existente nas terras do Caiapiá, onde foi fundada a primeira Cotia, nos idos de 1580.

“O Sítio do Mandu é uma edificação que remonta ao período colonial brasileiro, construída provavelmente no século XVII , localizada na cidade de Cotia, no estado de São Paulo. Diferencia-se das outras construções ainda existentes por apresentar uma varanda posterior e sinais de piso assoalhado, coisa incomum nestas moradas.

As entradas ou bandeiras eram expedições realizadas de forma espontânea ou financiada pela Coroa Portuguesa em direção ao interior do continente. Tais jornadas possuíam os mais diversos objetivos, entre eles o apresamento e controle de índios como força de trabalho, a procura por metais preciosos, o combate a rebeliões de indígenas e escravos negros, entre outros.

As viagens mais famosas e documentadas partiram da capitania de São Vicente, no atual estado de São Paulo. Em sua exploração do Planalto do Piratininga, os bandeirantes representaram um vetor significativo de avanço em direção ao oeste e de expansão do território brasileiro.

Luis Saia e a Morada Paulista

Construído provavelmente no século XVII, o Sítio do Mandu é considerado um exemplar característico de casa bandeirista. A teorização sobre esse tipo de construção ganhou força durante a primeira metade do século XX, na qual sucederam diversas manifestações de busca por uma identidade regional, especialmente frente à comemoração do quarto centenário da cidade de São Paulo.

Nesse contexto, se destaca a atuação do arquiteto e chefe regional do Serviço do Patrimônio Histórico Nacional (SPHAN), Luis Saia. Luis Saia estudou e sistematizou as características de doze casas semelhantes encontradas na cidade de São Paulo e nos municípios vizinhos de Sorocaba, Itaparica da Serra, Cotia e São Roque em uma série de artigos publicados na Revista Acrópole, que depois foram reunidos e publicados no livro “Morada Paulista”, em 1972.

Todas essas casas foram definidas como sedes de fazenda, de configuração térrea, situadas em um ponto à meia altura da paisagem. As construções se assentariam sobre uma plataforma, com paredes realizadas em taipa de pilão e cobertas por um telhado de quatro águas. A planta seria sempre retangular, contendo alpendre, capela, quartos de hóspedes, um salão central, alcovas para os moradores e outras peças auxiliares. Devido à inclinação adotada nos telhados, alguns desses cômodos poderiam ser forrados para que se pudesse aproveitar o espaço entre forro e telhado como sobrado.

Com base na investigação dos monumentos encontrados, Luis Saia teceu teorias acerca do modo de vida de seus usuários e das razões para as soluções encontradas. Suas análises levaram a uma interpretação diferenciada da figura do bandeirante e sobre seu papel na formação de uma cultura paulista. Esse pensamento justificou na época a valorização histórica dessas edificações, que passaram a ser tratadas como patrimônio e tiveram exemplares restaurados e protegidos por tombamento.

Tombamento e restauro

A casa foi tombada em 1961 pelo IPHAN e em 1974 pelo CONDEPHAAT. Deve-se ao arquiteto Eduardo Kneese de Mello a descoberta da casa em meio à propriedade adquirida por sua família[1][3]. O sítio do Mandu havia sido comprado por seu pai, Horácio de Melo, em 5 de Dezembro de 1946, do senhor Kenshima Komatsu, que o comprou de Roberto Galhego em 4 de Dezembro de 1926[1].

Em uma carta à Júlio Katinsky , Kneese de Mello relata a “existência de um casarão da taipa do tipo das casas ‘bandeiristas’ do Butantã e do Caxingui” e a realização de uma visita de reconhecimento do lugar na companhia de Luis Saia, Vilanova Artigas e Mário de Andrade[1].

Em 1962, foi empreendida a restauração da casa a partir do reforço estrutural das paredes e da troca de peças de madeira das esquadrias e da cobertura. Foram realizadas outras intervenções nos anos 80 e 90, e a conclusão definitiva do restauro foi iniciada em 2002.

Em 2014, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional-IPHAN, realizou outras ações de manutenção e conservação da edificação da casa bandeirista do Sítio do Mandu. Estas atividades envolveram a revisão da cobertura, telhado e madeiramentos, controle de pragas, preparação e realização de estucamento nas argamassas, em pontos deficientes[4].

Características

Trata-se de uma casa rural de configuração térrea e planta retangular e alpendres reentrantes nas elevações principal e de fundos[5]. A casa tem quatro quartos, duas varandas, uma em sua fachada, outra nos fundos e um quarto de hóspedes[6].

Suas paredes são autoportantes, construídas em taipa de pilão e pau-a-pique. Há um pequeno número de aberturas, e estas são estruturadas com vergas e contravergas de madeira, sendo as janelas dotadas de grades. O telhado de quatro águas possui estrutura de madeira, que se apoia sobre as paredes de taipa. A inclinação da cobertura é mais acentuada no centro e mais suave em direção aos beirais, de modo que visualmente forma uma curva. O espaço remanescente entre o telhado e o forro foi utilizado como sobrado. A planta possui divisões ortogonais e regulares, que podem ser organizadas em três faixas. Na estrutura do desenho não há corredores, os cômodos se abrem diretamente uns para os outros criando espaços centrais distribuidores. Na primeira faixa há três divisões formando dois compartimentos nas laterais que se abrem para um alpendre no centro. Essas peças laterais não se comunicam com o interior da casa.

Na segunda faixa há um salão central, desprovido de janelas ou claraboias, que dá acesso à quatro alcovas (duas a cada lado) de maneira direta. Dois desses compartimentos possuem escadas que levam ao sobrado.

Na terceira faixa se repete o esquema da primeira: um alpendre central com duas peças laterais. De uma maneira geral, a atribuição de funções específicas a cada um desses ambientes não pode ser realizada de maneira precisa, visto que não há documentação de seu uso ou presença de mobiliário que possa comprovar esse tipo de suposição. Sabe-se que um dos compartimentos da porção frontal localizada ao lado do alpendre, funcionava como capela, tendo sido encontrados um altar e vestígios de decoração religiosa no forro[5]. Em sua cúpula do altar-mor existe uma pintura seiscentista[2].

Situação atual

O Sítio do Mandu foi entregue pelo IPHAN à prefeitura da cidade de Cotia no ano de 2006 e está aberto à visitas monitoradas pela Secretaria de Cultura”.

PESQUISA ARQUEOLÓGICA NECESSÁRIA

No Jornal Corpus (www.jcorpus.com.br) edição de março de 2022, o Tema do Mês reproduz artigo de Mariana d´Almeida Y Piñon, co-fundadora do Grupo Granja e professora de Artes Visuais em Campinas.

No artigo, refere a articulista que a historiografia de Cotia tem vários e breves apontamentos, do século XIX ao século XXI, citando os vários autores que mencionam a antiga Koty e as buscas em fontes como atas municipais, inventários e testamentos, relatos de campanha sertaneja e minerária, entre os autores João Barcellos.

Mas – aduz – se temos, principalmente com Barcellos, uma historiografia bem pesquisada e publicada,  é ele mesmo quem afirma “…ser necessária, antes que seja tarde de mais, uma investigação arqueológica para a determinação do ponto territorial que abrigou aquela Koty no sertão de Carapochuyba, num dos braços piabiyuanos: o Caiapiã, na margem do Rio Cotia…” [1996], a lembrar que até AZEVEDO MARQUES situou nesse território o aldeamento que Dias Paes haveria de catolicizar, cerca de 1640, com capela em honra de Nª Sª do Monte Serrat.”

O artigo relata que Barcellos encontrou vários equívocos na historiografia de S. Paulo, Carapicuiba e Araçariguama, inclusive confusão entre Afonso Sardinha, o Velho e Afonso Sardinha, o Moço e que é inadmissível o entendimento de que Carapicuiba teria sido fundada pelos jesuítas – que também atinge Araçariguama (não esqueçamos que tudo era uma terra só).

Daí, informa a articulista, “Por essa atividade literária e jornalística é que BARCELLOS propõe uma “investigação arqueológica” tão necessária quanto a que ZANETTINI [Paulo] montou na Floresta de Morro Grande, nas cabeceiras do Rio Cotia, ou como a investigação cartográfica que GRUENWALDT [Marília] faz desde 2005.

“Por que é necessária uma investigação arqueológica? Porque até hoje, sabe-se que a Aldeia Koty “…primitiva existiu a 1 légua ou 5,5 quilômetros” [AZEVEDO MARQUES] da atual, “justamente onde hoje é o sítio do cidadão Antônio Manuel Vieira” [idem], que uns dizem agora [Séc. XXI] ser o sítio onde se construiu o condomínio San Fernando Golf Club; mas, a acreditar no testemunho de VILHENA [Nunes de], sabemos que a velha Koty estava “no alto de um morro, entre capoeiras altas”, onde ele observou “ruínas de construções antigas”, como lembra BARCELLOS citando-o no seu primeiro livro sobre Cotia.

“Assim, “…existem indícios para uma ação arqueológica em Cotia, até porque o povo guarani m´byano, além de migrante em rotas próprias na malha piabiyuana, construía casas-aldeias de apoio logístico denominadas koty, e quase sempre perto de linhas fluviais, como foi o caso da Koty no entroncamento do Caiaipiã, que ligava o planalto com o sertão e este com o litoral”, como foi observado num encontro de intelectuais no Colégio Kosmos, em 2006, com Astolfo Araújo, João Barcellos, Marília Gruenwaldt, Paulo Goulart e César Tiburcio, pelo que “as rurais mais tarde construídas pelos colonos [Ybitátá, Mandu, Carapochuyba, Pe Ignácio, Maracanduba, etc.] obedeceram aos mesmos critérios piabiyuanos de ocupação, defesa e sobrevivência, constituindo-se em pontos de referência e de abastecimento para sertanejos e bandeirantes”. 

Em resumo, o que João Barcellos propõe é uma investigação arqueológica no sítio onde primitivamente se situou Cotia. Afinal, se existe lá o casarão do Sítio do Mandú, não é ilógico que existam artefatos e até fundações da ocupação primitiva.

De toda forma, vale a pena conhecer o Sítio do Mandu.

Amanhã, vamos falar sobre a casa de Roque Medella, como a chama Barcellos, e que conhecemos como Sítio do Padre Inácio.

 

 

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