MÊS DE ANIVERSÁRIO DE COTIA – 5 OS LIMITES DA FREGUESIA DE COTIA

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Antonio Melo, para o Cotiatododia

O padre Daniel Balzan, hoje em São Roque, quando vigário de Cotia fez um belíssimo levantamento nos livros da Arquidiocese de São Paulo, a respeito de nosso hoje município. 

Seus trabalhos nos foram gentilmente cedidos para publicação, dentro desta série.

O primeiro trata dos limites da Freguesia de Cotia, que, como vimos, teve sua criação em 1723. 

Vamos ao grande trabalho do padre Balzan, aqui transcrito na íntegra:

“OS LIMITES DA FREGUESIA DE COTIA

Qual era a extensão da freguesia de Nossa Senhora de Monte Serrat de Cotia na época do Brasil colonial?

O documento mais antigo que fala dos limites desta freguesia data de 1748. Aos 12 de janeiro de 1748 foram feitas, pelo governo eclesiástico, as divisas de Cotia com Araçariguama pela forma seguinte: 

“Araçariguama com Acutia: do lado do Coronel Domingos Rodrigues da Fonseca em S. Roque, vulgo Peratinga, irá em linha que correndo em figura reta irá terminar no sítio do Paiol; todo o território que ficou da parte daquém pertencerá à freguesia de Acutia exclusive o sítio do dito Domingos Rodrigues e o Paiol e da parte dalém pertencerá a Araçariguama, inclusive, a ela o sítio do sobredito Domingos Rodrigues exclusive o do Paiol que pertence a Parnahyba como acima ficou dito. E acontecendo ficar sem freguesia a capela de S. Roque   que por ora está anexa a Araçariguama, terá a divisão entre Acutia e a futura freguesia de S. Roque uma linha que saindo do sítio de Jorge Garcia, exclusive, correndo pelo monte das Pitas venha acabar no sítio de Manoel Pereira e daí correndo a mesma linha irá a demandar a estrada de Apereatuba e terminará até o ribeirão Una que é o polo onde termina a freguesia de Sorocaba; todo o território da parte dalém desta linha será o território  de S. Roque exclusive o sítio do dito Manoel Pereira e daquém pertencerá o terreno a Acutia inclusive a ela o sobredito sítio de Manoel Pereira”  (Tombo de Araçariguama: 1747-1859, p.13 e “Auto de Delimitação da Paróquia de S. Roque: 1766-1768, p.3. Veja também: EUGÊNIO EGAR – Os Municípios Paulistas. 1º Vol. 1925, pp.597-598).

Ora, este documento apresenta apenas as divisas com Araçariguama e  São Roque. Não nos foi possível localizar, porém, documentos e provisões da criação das divisas com as demais freguesias que existiam na época. Buscamos seguir, portanto, um caminho indireto, mais lento e difícil, porém, suficientemente seguro para chegarmos às dimensões exatas da freguesia de Cotia nos anos de 1713.

O Livro de Óbitos de Cotia (1750-1775) será a nossa primeira fonte de referência. Transcrevemos alguns assentamentos que mencionam as freguesias com as quais a Paróquia de Nossa Senhora de Cotia fazia limites:

  1. “Aos 3 de janeiro de 1753 anos faleceu da vida presente Elena Carijó casada com Inácio, com o sacramento da Penitência, e extrema unção, de idade de 25 anos mais ou menos, moradora e freguesa na Aldeia de Baruery: foi enterrada na Capela se Sorocamerim dos Carmelitanos de minha licença, termo desta freguesia e recomendada pelo superior dela, de que fiz este assento”- Pe. Antônio Toledo Lara (p.19v).
  2. “Aos 3 de julho de 1755 faleceu da vida presente neta freguesia de Cotia, Quitéria, menor, filha de Antônio, administrador, e Antonia sua mulher, escravos de Francisco Pereira, fregueses de Santo Amaro, com o sacramento da Penitência e Extrema Unção. Foi sepultada na aldeia de M’Boy termo desta freguesia. De que fiz este assento” (idem. P.33v),
  3. “Aos 12 de fevereiro de 1755, faleceu da vida presente Joana, solteira, filha de Josefa Barroso, oriunda de Cuiabá, da casa de José Munhoz, com todos os sacramentos. Foi enterrada no adro da Igreja de Carapicuíba dos Jesuítas, de minha licença, termo desta freguesia. De que fiz este assento” (idem. P.39v).

Portanto, nos anos de 1753 a freguesia de Cotia fazia limites com Araçariguama, São Roque, a fazenda dos Padres de Nossa Senhora do Carmo em Sorocamerim e com as aldeias de M’Boy e Carapicuíba. Faltam os limites com a capital. Neste lado estavam localizadas as aldeias jesuíticas de Pinheiros, Santo Amaro e Sé.

Outra fonte importante são os livros de batizados (1793-1807) e de óbitos (1796-1816) de Cotia. Destes dois livros nos foi possível levantar mais de vinte bairros que, certamente, faziam parte da freguesia de Nossa Senhora de Monte Serrat, já que cada vigário só tinha jurisdição sobre a paróquia a ele confiada por lei eclesiástica. Nos anos 1794-95 os assentamentos de batizados e de óbitos começam registrar o local de moradia tanto dos pais que pediam o batismo para seus filhos como  da pessoa falecida. Os bairros que conseguimos anotar são as seguintes: Caucaia, Sorocamerim, Sorocabussú, Aguassaí, São João, Maracananduva, Das Lages, Moinho Velho, Caputera de M’Boy, Ressaca de M’Boy, Das Graças, Una, Sapiantan, Itaqui, Cupiachada, Taquaxiara, Carapicuíba e dos Corcumvizinhos (isto é dos bairros perto da Matriz).

Existe um documento que descreve toda a extensão da freguesia de Cotia escrito pelo Pe. Domingos Scacia, pároco da freguesia entre os anos 1902-1905. Trata-se de um relatório minucioso sobre a Paróquia exigido pelas autoridades eclesiásticas da época.

Escreve  o vigário:

“A criação desta Paróquia, segundo os assentamentos, data do ano de 1713. Os seus limites de longa data, exceção feita, dos existentes com a Paróquia de Una, que a princípio eram pelo rio Sorocabussú e presentemente, o são pelo rio Sorocamerim são os seguintes: Começando na ponte de Jaguarahé, estrada da Capital, segue pela estrada velha de Itu até o Mato do Paiol, município de Araçariguama, e daí, por uma reta, até o ribeirão da Vargem Grande, por este a desembocar no rio Sorocamerim e por este, até a Ponte dos Mendoncas; desta, pela estrada até o sítio de Adão Gonçalves e deste por uma reta, até a estrada da Ressaca e por esta até o ribeirão do mesmo nome; por este ribeirão abaixo até a estrada que, da Freguesia de M’Boy, vai à Capital e daí por uma reta, até as cabeceiras do rio Jaguarahé, e por este abaixo, até a ponte onde começou. Estas divisas dependem entretanto de retificação por faltar de melhores informações. Apesar de não constar ato algum Diocesano alterando as primitivas divisas eclesiásticas, sabe-se, entretanto, que as atuais respeitadas pelos paroquianos entre esta e a Paróquia de Una, não são as antigas” (Tombo de Cotia: 1878-1912, p.139-140 e 149). E ainda:

 

“Esta Paróquia confina:

Ao Sul e Sudoeste com as Paróquias de Itapecerica e Una,

Ao Norte com a de Parnaíba  e Araçariguama,

A Este com as de Santa Efigênia e Consolação, 

A Oeste com a de São Roque e

A Sudoeste com a de M’Boy”. (NR – M´boy é a atual Embu das Artes)

 

“Os limites desta Paróquia com as vizinhas são:

  • com a de Parnaíba, aos limites 19 km, sede a sede 30;
  • com a de Araçariguama, aos limites 12 km, sede a sede 24;
  • com a de Itapecerica, aos limites 12 km, sede a sede 20;
  • com a de Una, aos limites 21 km, sede a sede 40;
  • com a da Capital, aos limites 19 km, sede a sede 38;
  • com a de São Roque, aos limites 13.50; sede a sede 29;
  • com a de M’Boy, aos limites 9,50 km, sede a sede 10”  (idem. P.140)

 

Quanto aos limites com a freguesia de Ibiúna, Pe. Manoel de Oliveira, pároco de Cotia entre 1817-1866, relata que “erigindo-se a freguesia de Una em 1812, fez-se a sua divisão pelo rio Sorocabussú” (Tombo de Cotia: 1728-1844, p.104). Mesmo escrito quase duzentos anos após a inauguração da Matriz, o relatório de Pe. Scacia mostra que os limites da freguesia de Cotia continuaram quase os mesmos, sofrendo alterações do lado da capital, com a criação de novas paróquias.

Em relação aos limites com Ibiúna, ainda, os livros de Tombo das duas paróquias registram conflitos. O mais grave aconteceu antes de 1823 e só foi resolvido em 1859. A queixa dizia respeito à jurisdição sobre o povoado de Sorocabussú que, embora pertencendo à freguesia de Cotia, ficava mais perto da igreja de Ibiúna. Transcrevemos as reclamações do Pe. Manoel de Oliveira e os desdobramentos dos fatos!

“Diz o vigário da Freguesia de Cotia, José Manoel de Oliveira, que erigindo-se a Freguesia de Una em 1812, fez-se a sua divisão pelo rio Sorocabussú. Em maio do mesmo ano, ou que na verdade fosse o Rev. Vigário dela alcançou uma portaria de nova divisa sem o suplicante nem seus fregueses fossem ouvidos e, por isso, antes logo representaram o temor que tinham de ficarem compreendidos no Distrito de Una, e foi V.Excia. Revma. Servido mandar por seu despacho, que ficasse de nenhum efeito aquela portaria e conservados os povos na sua antiga posse. Não obstante, porém, foi saudável determinação de V.Excia.Revma. persiste O Rev. Pároco de Una, lendo a sobredita portaria à Estação da Missa Paroquial na sua freguesia, assim com outro papel ou requerimento que pretende fazer, convidando aos fregueses do suplicante para se revoltarem contra este, animando-os a que não temam porque ele assistirá com dinheiro aos pobres, ameaçado com a punição da justiça, aqueles que lhe não derem obediência, lembrando-lhes ao mesmo tempo, que se algum não estivesse ainda desobrigado, o fosse fazer na freguesia de Una, motivando, com isto, uma confusão. Além de tudo isso, Exmo. Revmo.Sr. promete o Rev. Suplicado, que no tempo de arrolar os fregueses, já de obrigar ao suplicante por uma demanda a cumprir-se aquela veneranda portaria, já cassada, e nesta tristíssima colisão, Exmo.Revmo. Sr. E querendo o suplicante obviar com tempo estes males e os pleitos em que sem dúvida irá gastar neles dinheiro dos seus pobres fregueses de quem  V.Revma. é pai, recorre com toda a veneração” (Tombo de Cotia: 1728-1844, p.104).

O mesmo vigário continua:

“Foi V.Excia. Revma. Que, dignando-se de atender que a princípio, quando se levantou aquela Freguesia, em um caso semelhante, mandou V. Excia. Revma. que o Rev. suplicante não admitisse fregueses alguns do suplicado, pena de suspensão, e assim sossegaram os Rev. Seus antecessores, uns poucos de anos é que o suplicante entrasse. Há de parecer a V..Excia..Revma. que agora será muito conveniente outra igual determinação, e que dela se façam lançamentos necessários nos livros de Tombo de ambas as Igrejas” (idem, p.104v).

O problema ficou resolvido pelo despacho de Dom Mateus de Abreu Pereira bispo de São Paulo e registrado no Livro de Tombo: 

“A divisão feita entre as freguesias de Cotia e Una foi feita e aprovada por Autoridade Real e por isso deve ser conservada; nem cada um dos Párocos delas devem empreender sobre os fregueses que não forem seus, conservando-se cada um com os que lhe pertencer de sua freguesia, sob pena de suspensão; e esta determinação se lance nos Tombos de ambas as Igrejas. São Paulo, 5 de Dezembro de 1823. – Mateus Bispo” (idem. p. 104v).

As tensões, porém, voltaram à tona nos anos seguintes! Desta vez o povo tomou a iniciativa… Os moradores do bairro de Sorocabussú fizeram um abaixo assinado exigindo do Bispo Dom Antônio Joaquim de Melo, que em 1859 estava visitando a freguesia de Ibiúna, uma solução definitiva. Pediam licença para frequentarem a Igreja de Ibiúna que ficava mais perto. O vigário de Cotia (ainda Pe. Manoel de Oliveira), foi chamado urgentemente para Ibiúna para um entendimento.

Uma curiosidade, porém, chama a nossa atenção neste abaixo assinado. Das vinte e quatro pessoas mencionadas apenas seis assinam em nome próprio Estas seis assinam em nome dos demais. Entre eles se destacava o Sr. Venâncio Dias da Cruz. Vendo o abaixo assinado, o vigário de Cotia ficou indignado:

“Ex. Revmo.. Senhor… talvez que esses assinados a rogo de nada saibam. Nota-se que algumas pessoas que merecem consideração não entraram nesse assinado, senão esses pobres ignorantes, talvez induzidos por um tal Venâncio, o primeiro assinado, que tem mostrado devoção a este respeito. Tenho outros fregueses mais distantes que estes. Apesar da distância que estes alegam, nunca lhes faltou o socorro espiritual e quando querem licença para desobriga, batizados e mesmo casamentos, nunca lhes neguei. Além de tudo seria uma confusão completa ficarem estes divididos, pertencendo à Igreja de Una e à justiça em Cotia, visto que quando esta foi elevada à categoria de Vila, foi com as suas divisas a tantos anos existentes. Portanto, visto que os suplicantes nada melhoram com que requerem, sou de opinião que se conservem como está agora. Não lhes faltam os socorros que até agora têm tido e assim evitam confusões… Cotia, 5 de fevereiro de 1859 (Tombo de Una: 1857-1878, p.16).

Pedindo informações a respeito das distâncias entre o bairro de Sorocabussú e as duas igreja, Dom Antônio Joaquim de Melo baixou o seguinte despacho:

“Sem marcarmos divisas, declaramos sujeitos à estola de Una os abaixo assinados e de uma vez desligados da estola de Cotia. O Rev. Pároco desta, antes de considerar aos referidos seus fregueses, ouvirá dos que assinaram com letras de outrém, se convém, no pedido, para evitar… Passará todos os nomes dos assinantes no Livro de Registros para só destes administrar sacramentos sem licença do Rev. Pároco colado de Cotia. Será então este despacho apresentado ao dito Rev. Pároco para sua inteligência. Una, 6 de fevereiro de 1859. + Antônio, bispo em visita” (idem. P.16).

Em 1920, surgiu outro desentendimento, entre as duas freguesias, desta vez em torno da capela Dos Grilos! Tanto o vigário de Cotia Pe. José Ferreira de Seixas, como o de Ibiúna Pe. Afonso Pozzi, alegava que aquela capela pertencia à sua paróquia, pois, ficava nos limites entre as duas freguesias:

“A minha paróquia é pequena – o lugar mais longínquo tem 4 léguas e meia, e a de Una é grande, tem 8 e 9 léguas de longitude – porém, nós, os dois vigários, tanto o da grande como a da pequena, nos havemos de contentar apenas com 7 palmos de terra”- 1920  (Tombo de Cotia: 1917-1933, p.61).”

(Continua) 

Medalhão do teto da nave da Igreja Matriz de N. S. do Monte Serrat, Cotia

Nave, altar-mór, altares colaterais e púlpitos da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrate de Cotia, construídos pelo entalhador português Bartholomeu Teixeira Guimarães ou algum de seus discípulos, em fins do século XVIII

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