ESTADO DE FLUXO E HIPNOSE DA ESTRADA: QUANDO DIRIGIMOS SEM PERCEBER QUE ESTAMOS DIRIGINDO

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Fenômeno ocorre quando o motorista  está tão concentrado na tarefa em que está realizando, que perde a consciência sobre tudo o que não está envolvendo a atividade, inclusive sobre o próprio motorista

O ESTADO DE FLUXO

“Eu já estava na pole, primeiro por meio segundo, depois por um segundo, e eu continuei baixando. De repente eu estava dois segundos mais rápido que todos os outros, incluindo meu colega de equipe com o mesmo carro. E repentinamente eu percebi que já não estava mais pilotando o carro conscientemente. Estava pilotando por um tipo de instinto, como se eu estivesse em uma dimensão diferente. Foi como se eu estivesse em um túnel, não apenas o túnel do hotel, mas todo o circuito era um túnel. Eu estava indo e indo e cada vez mais e mais e mais rápido. Estava bem acima do limite, mas ainda capaz de encontrar muito mais. Então eu acordei”.

Com essas palavras que Ayrton Senna descreveu sua pole position do GP de Mônaco de 1988, quando colocou brutais 1:47 de diferença sobre Alain Prost, que tinha exatamente o mesmo McLaren MP4/4 para acelerar nas ruas do principado. Para muitos, essa sensação descrita por Senna foi uma experiência transcendental, resultante de sua obstinação em andar cada vez mais rápido, como se a velocidade fosse seu mantra.

A velocidade e a obstinação foram fundamentais para Ayrton chegar a esse estado psicológico, mas a experiência em si não foi algo místico como pareceu. O que aconteceu foi uma condição psicológica atualmente conhecida como estado de fluxo.

Isso — essa espécie de transe descrita por Senna — faz parte do estado de fluxo, um estado psicológico no qual você está tão concentrado na tarefa em que está realizando, que perde a consciência sobre tudo o que não está envolvendo a atividade, incluindo sobre você mesmo.

Um outro exemplo mais comum acontece quando você está dirigindo há muito tempo, concentrado em um objetivo — como chegar em casa, por exemplo, ou então massacrar seu rival na pole position — e de repente você deixa de perceber o ambiente ao seu redor. Sua visão se torna um túnel, os elementos ao redor da pista ficam borrados, e você fica vidrado no traçado e executa a tarefa de dirigir de forma precisa, porém automática.

O estado de fluxo em que Senna entrou (e muitos de nós entramos quando queremos chegar logo em casa ou baixar tempo no track day) acontece quando você combina alguns dos seguintes fatores:

  • está profundamente concentrado no que está fazendo;
  • está combinando percepção e ação conscientemente, porém de forma automática;
  • perde a noção de si mesmo (não percebe, por exemplo, um ponto quente em contato com a pele);
  • percebe que está no controle da situação;
  • observa uma distorção temporal (aquela história do Senna sobre uma dimensão diferente);
  • é imediatamente recompensado pelas ações automatizadas

Em resumo, o estado de fluxo acontece quando você inicia uma atividade e começa a realizá-la com tamanha concentração que passa a continuar sua execução de forma automática, porém com extrema precisão ou habilidade, e se torna alheio a tudo o que não envolve a atividade. Você deixa de perceber o que está fazendo e passa a perceber apenas o resultado do que está fazendo.

Para isso também é preciso, acima de tudo nesta lista acima, ter bem desenvolvidas as habilidades necessárias para a execução desta tarefa — o que era o caso de Senna e também pode ser o seu caso em um caminho que você conhece muito bem, com um carro em que você também conhece muito bem.

O estado de fluxo, contudo, não pode ser confundido com uma outra situação temporária que acomete alguns motoristas: a hipnose da estrada.

A HIPNOSE DE ESTRADA

A hipnose de estrada é um estado mental no qual uma pessoa é capaz de dirigir longas distâncias, freando, acelerando, trocando marchas, ultrapassando, fazendo curvas e até desviando de obstáculos, porém inconsciente de estar fazendo tudo isso. Você talvez já tenha passado por isso: em um segundo você está dirigindo, no outro você está em casa. O que aconteceu no caminho? Você não sabe dizer pois estava “hipnotizado”.

Os primeiros relatos desse fenômeno psicológico apareceram em 1921, quando um artigo científico sobre o “hipnotismo da estrada” foi publicado, discorrendo sobre como as pessoas viajando em estradas apontadas para um horizonte distante tendiam a entrar em uma espécie de “estado de transe”.

Mas por que raios isso acontece? Como acabamos “desligados” de algo que requer concentração e como conseguimos dirigir sem causar acidentes nesse estado?

Em uma explicação simples, por causa da automaticidade do ato de dirigir. Automaticidade é a capacidade de fazermos certas coisas sem ocupar a mente. Geralmente a automaticidade é resultado de aprendizado, repetição e prática. Um exemplo simples é andar de bicicleta. Você não precisa pensar para pedalar e se equilibrar. Você só faz.

Mas a automaticidade não explica a hipnose de estrada, afinal, é possível dirigir no automático mantendo a concentração. Fazemos isso na maior parte do tempo. A automaticidade, nesse caso, permite a hipnose da estrada.

Pouco depois da primeira menção a essa hipnose, um outro artigo científico intitulado “Dormindo com os Olhos Abertos” supunha que pessoas em situações monótonas geralmente tendiam a entrar em um estado semelhante ao sono, porém sem fechar os olhos. O exemplo utilizado foi exatamente as viagens longas. Esse artigo foi publicado em 1929 e, tanto ele quanto o outro, de 1921, especulavam que esse “transe” dos motoristas eram a causa de muitos acidentes de trânsito sem explicação aparente.

Hoje a maioria dos psicólogos aponta vários fatores relacionados à monotonia da tarefa, à fadiga e ao tédio do motorista e à facilidade de dirigir um carro. A fadiga é um dos principais fatores, uma vez que a hipnose de estrada é muito semelhante ao sono — é por isso que não se recomenda dirigir cansado, ainda que sem sono. É por isso que me posicionei veementemente contrário aos limites de 100 km/h no Rodoanel Leste: a pista é praticamente reta, é longa e não há nada ao redor. O motorista entra em um estado de transe que pode ser mais perigoso que dirigir a 120 km/h.

Outra teoria é relacionada à sensação descrita por Senna. Um estudo antigo ligou a hipnose de estrada à fixação em um ponto da pista. Um outro estudo, publicado em 1978, indicou que a repetição desse cenário pode acabar levando nossa visão àquela condição de olhar vidrado de quando desligamos do ambiente ao nosso redor.

Mas como conseguimos reagir aos elementos do trânsito mesmo assim, hipnotizados? É que seus olhos fazem pequenos movimentos mesmo quando você está vidrado. Esses movimentos geralmente são uma resposta a estímulos externos, são movimentos de atenção. Assim, é possível que, durante a hipnose de estrada, os olhos respondam ao que acontece à frente do carro, mas como o cenário não varia significativamente, eles não “acordam”, nem alertam o cérebro.

E aqui voltamos à automaticidade: como dirigir é um ato relativamente simples, sem muitos detalhes e a automaticidade resulta da prática e repetição, conseguimos responder a esses pequenos estímulos visuais dirigindo o carro mesmo “hipnotizados”.

Para evitar esta condição tão perigosa quanto dirigir embriagado ou com sono, é importante estar consciente deste risco — o que é fácil quando você já conhece o caminho e conhece seu próprio organismo.  Se assumir o volante for inevitável, como geralmente é, basta tomar algumas ações que quebrem a monotonia da estrada, como escolher uma música no rádio, trocar de faixa a cada cinco quilômetros, por exemplo, ou mesmo tomar uma xícara de café ou algum tipo de energético.

(Leonardo Contesini – FlatOut)

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