ESCOLAS CRIAM REGRAS PARA TROCA DE FIGURINHAS DA COPA COMO FORMA DE EVITAR CONFLITOS

Colégios limitam horários, vetam celulares e estabelecem critérios de negociação para organizar a febre dos álbuns entre os estudantes
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ESCOLAS CRIAM REGRAS PARA TROCA DE FIGURINHAS DA COPA COMO FORMA DE EVITAR CONFLITOS

Colégios limitam horários, vetam celulares e estabelecem critérios de negociação para organizar a febre dos álbuns entre os estudantes

Com a chegada da febre do álbum da Copa do Mundo de 2026, as instituições de ensino  enfrentam o desafio de conciliar a empolgação dos alunos com a manutenção da rotina pedagógica. Em vez de simplesmente banir a circulação das imagens, diversos colégios decidiram intervir de forma educativa, estabelecendo normas claras para estruturar as trocas e transformar o hobby em uma oportunidade de convivência e resolução de disputas longe das telas dos celulares.

Na Escola Villare, localizada em São Caetano do Sul, as negociações ganharam dias específicos para acontecer: segundas e sextas-feiras, restritas ao período do recreio. O diferencial da instituição foi envolver os próprios estudantes no processo. As regras foram debatidas inicialmente dentro das salas de aula e, posteriormente, validadas em uma assembleia geral. “Nós estamos entendendo que tem temáticas das quais a escola não pode se abster. A gente não pode ser um mundo à parte do que está fora da instituição”, explica a orientadora educacional da escola, Silvia Gallo. Segundo a profissional, a construção coletiva das normas ajudou os alunos a buscarem o equilíbrio, evitando transações em que alguém saísse prejudicado.

O Desafio do “Bafo” e as Diferenças Etárias

O tradicional jogo do “bafo” — dinâmica em que se batem as mãos sobre as figurinhas para virá-las — continua sendo a principal fonte de conflito devido à disparidade de habilidade entre as crianças. Para contornar o problema, os alunos estipularam que apenas cromos comuns podem ser usados na brincadeira, além de combinarem previamente se a rodada vale a posse das cartas ou se é apenas recreativa.

A maturidade dos colecionadores também dita o ritmo das interações. De acordo com o diretor do Centro Educacional Pioneiro, Mário Fioranelli, enquanto os estudantes mais velhos demonstram um comportamento mais pragmático e focado na conclusão do álbum, os mais novos se envolvem emocionalmente e demandam mediação constante para não saírem em desvantagem. No Pioneiro, situado na Vila Clementino, na zona sul da capital paulista, a direção optou por não interferir no valor estipulado para as trocas, mas proibiu terminantemente a circulação dos papéis em sala de aula, liberando a atividade apenas nos intervalos e nos horários que antecedem ou sucedem as aulas regulares.

Fioranelli aponta que a restrição do uso de smartphones ao longo do dia escolar potencializou o engajamento físico em torno dos álbuns. “A ausência dos aparelhos já ampliou a interação entre os alunos. Com as figurinhas, isso ficou ainda mais forte”, destaca o diretor. Por outro lado, a escola conseguiu canalizar o interesse de forma produtiva: estudantes do 9º ano do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio montaram bancas de venda de figurinhas em eventos institucionais para arrecadar fundos para suas festas e viagens de formatura.

Interferência dos Pais e Ansiedade Juvenil

No Colégio Magno, também localizado na zona sul de São Paulo, a direção identificou um fenômeno complexo: a interferência desproporcional dos adultos. A escola passou a receber reclamações e bilhetes de pais indignados com trocas consideradas desvantajosas para seus filhos, além de discussões em grupos de mensagens focadas nas perdas ocorridas durante o jogo do “bafo”.

A diretora da instituição, Claudia Tricate, pondera sobre esse comportamento. “O que está acontecendo muito agora é que os adultos interferem na brincadeira das crianças, mandando aviso para a escola dizendo que o filho tinha uma figurinha de muito valor e trocou por poucas”, relata. Apesar disso, ela reconhece que há um lado positivo quando os pais auxiliam na organização das coleções ou compartilham momentos de compra com os jovens.

Tricate observa ainda que a geração atual exibe um ritmo diferente das anteriores, demonstrando maior pressa e impaciência para completar a coleção, traço que ela associa à velocidade do ambiente tecnológico diário. “As crianças e os adolescentes estão mais ansiosos para ver o resultado das coisas. Acho que a convivência hoje é mais apressada e tudo precisa acontecer na hora, os resultados precisam aparecer imediatamente”, analisa a diretora do Magno.

Atritos como Ferramenta Pedagógica

Mesmo nos ambientes mais regulados, os desentendimentos persistem, mas são encarados pela comunidade escolar como parte do processo de amadurecimento. Na Escola Bilíngue Pueri Domus, onde a circulação e as trocas são restritas estritamente às sextas-feiras, as divergências pontuais são integradas ao projeto pedagógico.

Para o diretor-geral da instituição, Deivis Pothin, os pequenos impasses gerados pelo mercado de troca de figurinhas servem de laboratório social para a vida adulta. “Eventualmente podem surgir pequenas discussões, mas enxergamos essas situações como oportunidades para trabalhar resolução de conflitos, negociação e respeito aos combinados”, conclui o educador.

Fontes: Folha de S.Paulo / Relatos de direção e orientação pedagógica da Escola Villare, Centro Educacional Pioneiro, Colégio Magno e Escola Bilíngue Pueri Domus. Imagem principal: Regras de troca de figurinhas da Escola Villare, definidas em assembleia com os alunos – Reprodução