
Pesquisas dos escritores Joáo Barcellos e Mario Luiz Savioli demonstram que Cotia foi fundada por volta de 1580 – e seu fundador, Diogo Antonio Tavares, era ninguém menos que irmão do bandeirante Raposo Tavares.
Emancipada administrativamente a 2 de abril de 1856, quando seu primeiro dirigente foi o intendente João de Albuquerque, Cotia comemora hoje 169 anos de emancipação político-administrativa.
Mas sua história remonta ao século XVI, porque em 1580 criou-se a Sesmaria de 12 de outubro, conhecida por “dos Índios das Aldeias dos Pinheiros e Ururay”, território doado pela Coroa portuguesa através do capitão Jerônimo Leytão, então chefe da Capitania de São Vicente.
Essa sesmaria engloba várias aldeias de índios, entre elas Carapicuíba, Araçariguama, Barueri, Itapevi e outras. De acordo com os pesquisadores Joao Barcellos e Mario Luiz Savioli, 12 de Outubro de 1580 passa a ser a data de referência da colonização à presença castelhana, e onde, ainda no Caiapiã, a partir de 1634, o português e cristão-novo Diogo da Costa Tavares irá erguer Capela em honra de Nª Sª do Monte Serrat, tornando-se o seu fundador cristão a partir dos anos 1634; a Capella é curada e a aldeia é elevada a Freguesia em 1676.
Da atual região do Caiapiá, a capela em homenagem a N.S. do Monte Serrat foi transferida, para as terras de Estevam Lopes de Camargo, que dá continuidade à paróquia, onde se encontra até hoje. Detalhe: a imagem da santa foi levada por Vieyra Tavares, filho do fundador Diogo, para sua fazenda-capela em Salto.
Em 1713, a aldeia/paróquia recebe Juiz de Vintena, Escrivão e Alcaide.
Em artigo publicado na revista JC – Jornal Corpus, o escritor João Barcellos, reunindo pesquisas próprias com as pesquisas do escritor Mario Luiz Savioli, faz um quadro dos sete momentos importantes na vida de nosso município.
Tão importante nos parece esse documento, que resolvemos, com anuência do autor, publicá-lo na íntegra, porque retrata a nossa história, hoje tão esquecida e limitada a poucas linhas, quando na verdade está presente na História do Brasil desde o século da descoberta.
Vamos a ele.
“COTIA ATRAVÉS DE SETE MOMENTOS HISTÓRICOS
A cidade paulista de Cotia, cujo nome vem do Guarani m´byano “Akuti´a / Acutia” [q.s., “Ponto de Encontro”], e por isso já foi chamada e instituída como Coty, Cuty, Cutia, Acutia e Cotia, daí que há uma primeira fase de “acutienses” e uma segunda de “cotianos”, é, no Séc. 16 e 17, marco na estratégia do Povo Guarany, que habita entroncamentos de boca-de-sertão, como no planalto paulista, e ilhas, como a do Desterro, hoje Florianópolis, em Santa Catarina. Esse povo guarani, cuja Língua M´Byã se mistura muitas vezes com o Tupi [daí se falar de uma língua geral tupi-guarani], assenta as suas aldeias em pontos estratégicos, por isso as designa, na maioria das vezes, por elementos de necessidade logística, e eis “Akuti´a”.
Assim, o 1º momento da Akuti´a/Acutia é o Povo Guarany, de que as atas da vereança paulistana e o regimento da Capitania vicentina e os Inventários dos colonos e dos bandeirantes dão testemunho. Esse povo é quase exterminado, e no final do Séc. 17 quase nem há vestígios dele na aldeia. Hoje, em todo o Brasil, existem de 5000 a 7000 pessoas desse Grupo M´Byá…
Entretanto, um outro Povo nativo, sob comando de Anchieta – jovem jesuíta e ajudante de Manoel da Nóbrega [este, o fundador de Sam Paolo no espigão dos Campos de Piratininga] – vem para a região que viria a ser a “Sesmaria dos Índios das Aldeias dos Pinheiros e Ururay”, mistura-se a outros povos vizinhos [do tupi-guarani = goayanazes] que circulam entre as terras de Affonso Sardinha (o Velho), em Carapochuyba e M´Boy, e que ajudam no reforço de aldeias como Tapiipissapé [Itapecerica], pontos de defesa da Sam Paolo, e, mais tarde, a outros nativos aprisionados por bandeirantes, e também na passagem dos Tavares, os Godoy, os Camargos, os Dias Paes e etc.: esse é o Povo Tupi-Guarany, o 2º momento da Akuti´a/Acutia.
O 3º momento é a parte mais importante da Historiografia Cotiana: a Sesmaria de 12 de Outubro de 1580, que fica conhecida por “dos Índios das Aldeias dos Pinheiros e Ururay”. Esse território, doado pela Coroa portuguesa, através de uma canetada mais política do que administrativa do capitão Jerônymo Leitão [no âmbito da perda do Trono português para Castela], que chefia a Capitania de S. Vicente, engloba aldeias como Carapochuyba, Arassaryguama, Akuti´a/Acutia, M´Baroery, Itapevi, etc., logo, 12 de Outubro de 1580 passa a ser a data de referência da colonização à presença castelhana, e onde, ainda no Caiapiã, a partir de 1634, o português e cristão-novo Diogo da Costa Tavares irá erguer Capela em honra de Nª Sª do Monte Serrat, tornando-se o seu fundador cristão: a capela montesserratiana é curada e a aldeia é elevada a Freguesia em 1676.
A capela montesserratiana, sem a imagem da santa [levada por Vieyra Tavares, filho de Diogo, para a sua fazenda-capela montesserratiana em Salto, com autorização eclesiástica], será transferida para o certam d´Itapecerica em 1703 e estabelecida em terras de Estevão Lopes de Camargo que dá continuidade à paróquia. E logo, em 1713, a aldeia/paróquia recebe Juiz de Vintena, Escrivão e Alcaide.
O 4º momento da Akuti´a/Acutia é Diogo Antônio Feijó, maçom e presbítero, que tem uma ascensão política extraordinária no quadro liberal-aristocrático e vem a ser eleito Regente do império bragantino-brasileiro. Nasce em Cotia no ano 1784, e logo é “exposto”, enquanto “filho de pais incógnitos”, na casa do padre Fernando Camargo, na Rua da Freira, centro de São Paulo; na verdade, ele é fruto dos amores de Maria Joaquina, irmã do Pe Fernando, com Diogo Feijó, também padre. Isso marca a sua vida e é a base para uma batalha, diante do Vaticano, contra o celibato dos padres. O cotiano Feijó é quem, em 1822, nas Cortes de Lisboa, lançou o primeiro e único grito político pela Independência do Brasil, já que para os imperadores importava somente a independência da Casa de Bragança, não a do Brasil…!
O escritor, promotor público e tenente da Força Pública, Baptista Cepellos, que chega a chefiar o respectivo quartel instalado em Cotia, é o 5º momento da Akuti´a/Acutia em apreço neste breve apontamento. Ele nasce no bairro cotiano de Ribeirão da Vargem Grande, em 1872, e vem a morrer no Rio de Janeiro, em 1915, quando se vê impossibilitado de prosseguir sem a companhia da amada Sofia, filha do senador paulista Peixoto Gomide, que a mata, em 1906, para impedir o casamento com o poeta, ´colorido´, pobre e interiorano.
O 6º momento é mais uma data municipalista: 02 de Abril de 1856, quando Cotia ganha emancipação político-administrativa tendo o intendente João de Albuquerque como 1º Prefeito; mas só é Municipalidade pela Lei Estadual nº 1030, de 19 de Dezembro de 1906.
A famosa e já extinta Cooperativa Agrícola Cotia [CAC] é o 7º momento da Akuti´a/Acutia: após o assentamento de uma parte da Diáspora Nipônica [18.6.1908], no Bº do Moinho Velho, a laboriosa e criativa gente do Sol Nascente estabelece as bases para uma cooperativa [20.12.1927] que, tendo a agricultura de base familiar sobrevivendo ao longo do Piabiyu [e, este, sobre o Aqüífero Guarani], como ponto de partida, logo ganha a amplitude do Comércio Agrícola nacional e internacional. É com a CAC que a Cotia do Séc. 20 se abre ao mundo, sem deixar de ser um ponto-de-encontro no âmbito metropolitano da Grande São Paulo e, posteriormente, do Mercosul.”
PERFIL DO FUNDADOR DE COTIA
“Irmão do politicamente inquieto Antônio Raposo Tavares, cuja última bandeira (em serviço secreto solicitado pelo rei após a restauração do Trono português, em 1640) deu ao Brasil as fronteiras continentais, Diogo da Costa Tavares foi um colono e militar (no posto de capitão das forças paulistas). Nas suas terras na campina do Caiapiã, território da Carapochuyba, aldeia importante pelo cais anhambyano, mandou erguer (dar ´fabrica´) Capela de Nossa Senhora do Monte Serrat da Acutia, em 1639.
As ações, tanto sesmeiras (povoamento e agricultura) como militares, permitiram a Diogo da Costa Tavares ombrear com a fama do irmão Antônio, mas com a diferença de se posicionar institucionalmente pela união do todo português-brasileiro e mameluco (a raça brasileira em ascensão). Mesma em plena crise política provocada pela disputa entre Pires (portugueses) e Camargos (castelhanos), o fundador d´Acutia montesserratiana quis e
mostrou ser digno da nação que escolheu para formar família. (João Barcellos, 2023).
1614 – No povoado de São Miguel de Beja, província do Alentejo, ao sul de Portugal, nasce Diogo da Costa Tavares, filho de Fernão Vieira Tavares e Maria da Costa.
A família da Costa Tavares é cristã-nova e parte dela encontra no Brasil casa nova. Equanto isso, a mãe Maria é sentenciada pela Inquisição cristãcatólica ainda no Alentejo.
1638 – O pai Fernão, com terras “rio Acutia arriba”, manda buscar Diogo, que mora com o resto da família no Alentejo. Em terras d´Acutia já estão os seus irmãos, entre eles Antônio Raposo Tavares.
1639 – Diogo casa com Maria Bicudo em terras do pai na campina do Caiapiã, então Crtam y mattos da Carapochuyba, onde estabelece a ´fabrica´ da Capela para Nª Sª do Monte Serrat da Acutia, onde o evento é consagrado.
A data consagra a edificação da 1ª Capela montesserratiana que, posteriormente, teve apoio na manutenção das famílias Camargo, Godoy, Pais Leme, Vaz-Guassu, entre outras.
No mesmo ano, Diogo integra as forças paulistas que vão ajudar a restaurar a Capitania pernambucana e recebe a patente de capitão.
1642 – Diogo retorna à sua d´Acutia.
1653 – Morre a esposa Maria Bicudo, filha de Manoel Pires. No mesmo ano, na Capela montesserratiana do Caiapiã, Diogo casa com Catharina de Lemos.
1659 – Em sua casa pelo rio Acutia acima, na campina do Caiapiã, morre o capitão Diogo da Costa Tavares
(Datação extraída do livro A COTIA DAS DUAS CAPELAS (de 2022), do Arqº Mário Luiz Savioli.”)
MUDANÇAS NA BANDEIRA
O escritor João Barcellos narra, ainda no Jornal Corpus, que protocolou, em 27 de janeiro passado, ao prefeito Welington Formiga, o novo “Quadro Historiográfico de Cotia”, solicitando alteração do termo “arraial” no memorial descritivo da Bandeira (na verdade, é Freguesia) e a data dessa elevação que é 1676, e não 1723.
A documentação pesquisada indica o cavaleiro do rei e colono Diogo da Costa Tavares como fundador da Acutia, no Caiapiã, ao mandar erguer, a partir de 1634, Capella em honra de Nª Sª do Monte Serrat -, por isso, o seu nome deve ser inserido como tal no memorial descritivo da Bandeira e outros documentos.
Fontes:
BARCELLOS, João – Cotia: Uma História Brasileira (3ª Ediç., 2025)
SAVIOLI, Mário Luiz – A Cotia Das Duas Capelas (2022).
LEME, Pedro Taques de Almeida Paes (1714, †1777) – Nobiliarquia Paulistana Histórica e Genealógica. SP-Brasil, Ediç Edusp.
LEME, Luís Gonzaga da Silva (1852, †1919) – Genealogia Paulistana. SP-Brasil, 1903-1905, Edit Duprah & Cia.
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