LEVANTE MULHERES VIVAS: EM TODO O PAÍS, ATOS DENUNCIAM ONDA DE FEMINICÍDIOS E OMISSÃO ESTATAL

Sob o grito uníssono de “Parem de nos matar”, milhares de mulheres ocuparam as ruas de pelo menos nove capitais e diversas cidades do interior do Brasil neste domingo (7). O movimento, batizado de “Levante Mulheres Vivas”, foi uma resposta direta e indignada à recente escalada de violência de gênero e à percepção generalizada de omissão do Estado na proteção das vítimas.
Debaixo de chuva em Brasília ou ocupando a Avenida Paulista em São Paulo, a mensagem foi a mesma: o feminicídio no Brasil atingiu níveis de epidemia, e as medidas atuais são insuficientes. O país já registrou mais de 1.180 feminicídios apenas em 2025, superando marcas históricas de violência.
O Estopim da Revolta
A mobilização foi convocada por dezenas de coletivos feministas e organizações sociais após uma semana marcada por casos de extrema brutalidade que chocaram a opinião pública. Entre os crimes que motivaram os atos estão:
- Brasília (DF): O assassinato da cabo do Exército Maria de Lourdes Freire Matos, 25 anos, morta a facadas e carbonizada dentro de um quartel pelo soldado Kelvin Barros da Silva na última sexta-feira (5).
- São Paulo (SP): O caso de Tainara Souza Santos, que teve as pernas mutiladas após ser atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro pelo motorista Douglas Alves da Silva.
- Rio de Janeiro (RJ): A execução de duas funcionárias do Cefet-RJ, Allane Pedrotti e Laysa Pinheiro, mortas a tiros por um colega de trabalho.
- Outros casos: A morte de Isabely Gomes e seus quatro filhos em um incêndio provocado pelo marido em Recife (PE), e o assassinato da professora Catarina Kasten em Florianópolis (SC).
“Micaelly dos Santos Lara foi vítima de uma cultura que mata mulheres apenas por serem mulheres. Todas as vezes que uma mulher morre, eu revivo aquela dor”, desabafou Aletheia Santos, mãe de uma vítima de feminicídio, durante o ato na Avenida Paulista.
A Omissão do Estado e o Sistema de Justiça
Uma das pautas centrais dos protestos foi a crítica à atuação das instituições. Em Brasília, onde o ato na Torre de TV contou com a presença da primeira-dama, Janja Lula da Silva, e de ministras de Estado como Cida Gonçalves (Mulheres) e Anielle Franco (Igualdade Racial), o tom das ativistas foi de cobrança severa.
A socióloga Vanessa Hacon, do Coletivo Mães na Luta, denunciou a “revitimização” dentro do sistema judiciário. “As mulheres saem de casa para se livrar da violência doméstica e vão parar dentro do sistema de Justiça, onde a violência processual é intensa e absurda. Juízes, muitas vezes, não fazem nada e arquivam denúncias sob argumentos vagos e estereótipos machistas”, afirmou.
A deputada federal Erika Hilton, presente em São Paulo, reforçou o coro por dignidade: “Tomamos a rua para dizer que nenhuma mulher será esquecida. Todas merecem proteção”.
Orçamento e Prevenção
Além da punição rigorosa, as lideranças enfatizaram a necessidade de orçamento público para políticas de prevenção. Renata Parreira, do Levante Feminista, destacou que sem recursos e equipes qualificadas, não há como frear a violência.
A ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, reconheceu os desafios e afirmou que o governo federal tem intensificado a integração com estados e municípios, citando a expansão das Casas da Mulher Brasileira e o reforço no Ligue 180. No entanto, críticas sobre a execução orçamentária estadual, como em São Paulo, onde a previsão de verba para acolhimento em 2026 é considerada irrisória por ativistas, permearam os discursos.
Misoginia e Redes Sociais
Outro ponto nevrálgico abordado foi o papel da internet na propagação do ódio. A atriz e ativista Lívia La Gatto pediu a criminalização da misoginia e a regulação das redes sociais, citando o caso do influenciador Thiago Schutz (“Calvo do Campari”) como exemplo de como o discurso de ódio digital alimenta a violência real.
“Esse discurso, quando não é parado, vira uma agressão. E essa agressão, quando o governo não dá atenção, vira um feminicídio”, alertou La Gatto.
Abrangência Nacional
Os atos ocorreram de norte a sul do país, demonstrando a unidade da pauta:
- Sudeste: Multidões no MASP (SP), Copacabana (RJ) e Praça Raul Soares (BH).
- Nordeste: Caminhadas em Recife (PE), João Pessoa (PB), Teresina (PI) e Salvador (BA, agendado para o dia 14).
- Sul: Protestos em Florianópolis (SC), Curitiba (PR) e Porto Alegre (RS).
- Centro-Oeste e Norte: Atos em Brasília (DF), Cuiabá (MT), Belém (PA) e Manaus (AM).
A mensagem final do domingo foi clara: a sociedade civil não aceitará mais a naturalização da barbárie, exigindo que o Estado, os homens e a sociedade como um todo assumam a responsabilidade de parar a guerra contra as mulheres.
(Da redação. Imagem Marcelo Camargo, Ag. Brasil)





