SÃO PAULO BATE RECORDE HISTÓRICO DE FEMINICÍDIOS EM 2025; ITÁLIA PROPÕE PRISÃO PERPÉTUA PARA ASSASSINOS

Capital paulista registra maior índice desde 2018; na contramão da violência, Itália aprova prisão perpétua para feminicidas e altera lei sobre consentimento
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A violência de gênero atingiu níveis alarmantes em São Paulo no ano de 2025. Dados recentes revelam que a capital paulista quebrou o recorde histórico de feminicídios, contabilizando 53 casos apenas entre janeiro e outubro — o maior número já registrado desde o início da série histórica em 2018. O cenário, marcado por requintes de crueldade e ódio, acende o alerta sobre a ineficácia de medidas protetivas isoladas sem uma mudança cultural profunda.

A brutalidade dos casos recentes ilustra a frieza das estatísticas. No último sábado (29), Tainara Souza Santos, de 31 anos, teve as pernas amputadas após ser atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro pelo agressor na zona norte de São Paulo. Dois dias depois, outra mulher foi baleada pelo ex-companheiro dentro de uma pastelaria. Ambos os casos foram registrados como tentativa de feminicídio.

O cenário na Grande São Paulo e em Cotia

A escalada da violência não se restringe aos limites da capital. A Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), onde o município de Cotia está inserido, acompanha a tendência de alta na violência doméstica.

Embora os dados consolidados de 2025 especificamente para Cotia ainda estejam sendo totalizados mês a mês, o município apresenta um histórico que exige atenção. Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), a região da Grande São Paulo frequentemente concentra um volume significativo de medidas protetivas de urgência e lesões corporais dolosas, que são, muitas vezes, o prenúncio do feminicídio.

Em levantamentos anteriores e contínuos da SSP, a delegacia de Cotia e a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) local mantêm altos índices de inquéritos por violência doméstica. A subnotificação e o medo de denunciar ainda são barreiras na região.

Crueldade e Ódio: A visão de quem está na linha de frente

Para além dos números, a forma como as mulheres são mortas tem chocado até profissionais experientes. Telma Rocha, fotógrafa técnico-pericial com 30 anos de atuação, relata um cenário de guerra nos corpos das vítimas: “Queimadas, amarradas, espancadas, mutiladas. Mas o que mais me chama a atenção, e muitas vezes me quebra, são os ferimentos de defesa. Cortes nas mãos, nos braços e unhas quebradas”.

A desembargadora Ivana David, do Tribunal de Justiça de São Paulo, reforça que “os homens estão mais violentos e agressivos”, indicando que o feminicídio é o limite final de um ciclo que o agressor sinaliza muito antes.

Fatores de risco e falhas na proteção

Especialistas apontam que a legislação brasileira, que prevê penas de até 40 anos para feminicídio, não tem sido suficiente para inibir os crimes. Luciane Mezarobba, advogada especializada, destaca a necessidade de atacar o problema em duas frentes: políticas públicas estruturais (como creches e escolas integrais) e a esfera privada, combatendo a educação machista.

“É uma recusa masculina de sair desse lugar de exigência e de dominação sobre o que acham que as mulheres deveriam fazer, desejar, escolher”, analisa a pesquisadora da UnB, Maisa Guimarães.

Beatriz Accioly, do Instituto Natura, alerta ainda para o papel das redes sociais na disseminação de misoginia e discursos de ódio, que validam o comportamento agressivo offline.

Exemplo internacional: Itália endurece leis

Enquanto o Brasil luta para conter a sangria, a Itália avança na legislação penal. O parlamento italiano aprovou recentemente, por unanimidade, a inclusão do crime de feminicídio no Código Penal, com punição de prisão perpétua. O país também alterou a legislação sobre estupro, introduzindo a necessidade explícita de consentimento, uma mudança vista como uma revolução cultural no sistema jurídico europeu.

O perigo dentro de casa

Relatórios da ONU lançados recentemente corroboram a gravidade da situação global: o lar continua sendo o lugar mais perigoso para mulheres. Em 2024, 60% das 83 mil mulheres assassinadas no mundo foram mortas por parceiros íntimos ou familiares.

No Brasil, a maioria dos crimes (67%) também ocorre dentro de casa. Para romper esse ciclo, a delegada Adriana Liporoni enfatiza que o desafio está na prevenção e na capacidade da rede de proteção de identificar os primeiros sinais de violência antes que eles evoluam para o desfecho fatal.

“O lar continua sendo um lugar perigoso e, às vezes, letal para muitas mulheres e meninas ao redor do mundo”, declarou John Brandolino, diretor executivo do UNODC, durante o lançamento do Femicide Brief 2025, novo relatório da ONU sobre violência contra a mulher.

“O Femicide Brief 2025 é um lembrete contundente da necessidade de melhores estratégias de prevenção e respostas da justiça criminal ao feminicídio — respostas que considerem as condições que propagam essa forma extrema de violência”, acrescentou.

Feminicídios não acontecem isoladamente”, destaca Sarah Hendriks, diretora da Divisão de Políticas da ONU Mulheres. “Geralmente fazem parte de um contínuo de violência que pode começar com comportamentos controladores, ameaças e assédio, inclusive online”.

(Da redação, com informações da Agência Brasil, O Globo e Folha de S. Paulo. Imagem Tânia Rego, da Ag. Brasil)