BRASILEIROS NÃO CONSEGUEM CONTROLAR DIABETES E HIPERTENSÃO MESMO QUANDO TRATADOS

Estudo revela que apenas 12,7% dos pacientes conseguem controlar pressão arterial e glicemia; maioria convive com risco elevado de infarto, AVC e morte precoce
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Um cenário alarmante foi revelado pelo estudo SNAPSHOT no Congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp): a vasta maioria dos brasileiros diagnosticados com hipertensão e diabetes tipo 2 não consegue manter as doenças sob controle, mesmo sob tratamento. Apenas 12,7% dos pacientes atingem simultaneamente as metas recomendadas para pressão arterial e glicemia, colocando-os em altíssimo risco de infarto, AVC e morte precoce.

A pesquisa, que analisou 394 adultos em 11 centros especializados (públicos e privados) nas cinco regiões do país, pintou um quadro preocupante. Apenas 28,9% dos pacientes tinham a pressão sob controle, e somente 39,1% mantinham níveis adequados de hemoglobina glicada, um importante marcador do controle glicêmico. O estudo visava traçar o perfil clínico desses pacientes e avaliar o cumprimento de metas de tratamento conforme diretrizes internacionais.

Um Alerta para a Saúde Pública

O resultado não nos surpreende, mas constrange“, afirma Emilton Lima Junior, cardiologista, coordenador nacional do estudo e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Ele observa que as complicações típicas de ambas as doenças – como amputações, lesões oculares e insuficiência renal – continuam alarmantemente presentes na prática clínica diária.

O problema transcende as fronteiras brasileiras, com resultados semelhantes sendo encontrados globalmente. No entanto, o cenário pode ser ainda mais grave, considerando que uma parcela significativa da população nem sequer sabe que possui essas condições. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais da metade dos hipertensos ainda não recebeu um diagnóstico.

A Perigosa Combinação: Hipertensão e Diabetes

Um dos pontos mais críticos levantados pelo estudo é a sobreposição entre hipertensão e diabetes tipo 2.

De acordo com Renata Lima, gerente médica da Servier, aproximadamente 30% dos hipertensos também são diabéticos, e cerca de 80% dos diabéticos convivem com a hipertensão. Essa “multimorbidade” eleva exponencialmente o risco de eventos cardiovasculares graves. “A hipertensão isolada já é o principal fator de risco para morte cardiovascular. Quando combinada com o diabetes, esse risco dobra ou triplica”, explica Lima Junior.

O levantamento também aponta que 93% dos participantes tinham pelo menos uma outra comorbidade associada, como dislipidemia, doença arterial periférica ou histórico de infarto. A obesidade é outro fator predominante, com 85% dos avaliados apresentando um Índice de Massa Corporal (IMC) médio de 30,2 kg/m².

Desafios no Diagnóstico e Tratamento

Mesmo com ferramentas clínicas para estimar o risco, o estudo revelou que médicos subestimaram a gravidade em quase metade dos casos. Cerca de 15,6% dos pacientes foram classificados como de risco moderado, embora as diretrizes indiquem que todos estavam em situação de alto ou muito alto risco. “O tempo da prática médica não acompanha a velocidade das novas diretrizes, que mudam a cada dois anos, com metas mais rígidas”, observa Lima Junior.

Outro fator crucial é a adesão ao tratamento. A maioria dos pacientes precisa tomar entre 4 e 15 comprimidos por dia, o que dificulta a rotina. “Quem se lembra de tomar tanta pílula?”, questiona o cardiologista. Embora existam opções modernas, como os comprimidos de dose fixa combinada, que reúnem múltiplos princípios ativos e simplificam o tratamento, essas formulações ainda não são oferecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O Ministério da Saúde informa que a inclusão de novas tecnologias depende de avaliação da Conitec e, até o momento, não há propostas em análise para esse tipo de medicação para hipertensão e diabetes.

Além dos Remédios: A Importância do Estilo de Vida

O controle dessas doenças vai muito além da medicação. “Não é só medicação”, reforça Renata Lima. Mudanças no estilo de vida, como alimentação saudável, atividade física regular, sono de qualidade e redução do estresse, são pilares essenciais para o sucesso terapêutico.

Apesar dos desafios, o esforço compensa. Lima Junior destaca que manter a pressão sob controle em um paciente hipertenso aos 50 anos pode aumentar sua expectativa de vida em até 10%. “É como se, a cada dez dias com a pressão controlada, ele ganhasse um dia a mais de vida”, conclui o especialista, ressaltando a urgência e a importância de um controle mais eficaz dessas condições crônicas no Brasil.

(Da redação. Fonte: Conselho Federal de Farmácia. Imagem: Agência Brasil – Marcelo Camargo)