ELETIVIDADE ALIMENTAR NO AUTISMO EXIGE ATENÇÃO QUE VAI ALÉM DO COMPORTAMENTO

Especialistas alertam que recusa alimentar em pacientes com TEA está ligada a fatores sensoriais e pode causar graves deficiências nutricionais.
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Longe de ser apenas uma “fase” ou “birra”, a seletividade alimentar em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) representa um desafio clínico real. Dados do IBGE indicam que cerca de 2,4 milhões de brasileiros vivem com o diagnóstico, e uma parcela significativa enfrenta dificuldades severas à mesa, o que pode gerar impactos profundos no desenvolvimento infantil.

O DESAFIO SENSORIAL

Para muitas famílias, a hora da refeição é sinônimo de tensão. No entanto, a ciência explica que a recusa não é uma escolha deliberada. Segundo a Dra. Nely Sartori, neurologista do Hospital Regional de Assis (unidade gerida pelo CEJAM), a origem do problema reside no processamento sensorial. “No TEA, estímulos como textura, cheiro e temperatura costumam ser aversivos ou até dolorosos”, afirma a médica.

Essa sensibilidade, somada à rigidez cognitiva típica do autismo, faz com que a criança prefira o jejum prolongado a ingerir algo que lhe cause desconforto. A máxima de que “quem tem fome, come” não se aplica nesses casos, tornando a intervenção profissional indispensável.

IMPACTOS NA SAÚDE E DESENVOLVIMENTO

A restrição severa de grupos alimentares pode levar a carências de ferro, vitamina D, cálcio e vitaminas do complexo B. Essas deficiências comprometem a imunidade, a cognição e o comportamento, gerando um ciclo de irritabilidade e desregulação emocional.

A nutricionista Ana Carolina de Morais, da UBS Jardim Aracati (também gerida pelo CEJAM), reforça que o tratamento deve ser multidisciplinar, envolvendo fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e psicólogos. “É importante oferecer o alimento várias vezes, em diferentes formas, sem forçar. O simples contato visual já representa um avanço”, orienta a profissional.

DIREITOS E ESTRATÉGIAS

No ambiente escolar, o suporte é garantido por lei. Em São Paulo, crianças com TEA têm o respaldo legal para levar seus próprios alimentos de casa, desde que haja indicação médica, evitando que fiquem longos períodos sem se alimentar devido à seletividade.

A orientação final das especialistas é clara: tratar a seletividade como simples resistência pode atrasar diagnósticos e intervenções fundamentais para a qualidade de vida da criança e de sua família.

Fontes: CEJAM (Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”),