DIA MUNDIAL SEM TABACO: ESPECIALISTAS ALERTAM PARA RISCOS DOS VAPES E BENEFÍCIOS DE ABANDONAR O CIGARRO

Campanha global em 31 de maio reforça a rápida recuperação do organismo após a interrupção do tabagismo e acende alerta sobre avanço dos dispositivos eletrônicos entre os jovens
0
150

No Dia Mundial Sem Tabaco, celebrado neste domingo, 31 de maio, médicos e autoridades de saúde reforçam uma mensagem fundamental: nunca é tarde para abandonar o cigarro. Ao mesmo tempo em que a medicina comprova a capacidade de regeneração do corpo humano após a interrupção do tabagismo tradicional, um novo e perigoso desafio se consolida na saúde pública: a popularização dos cigarros eletrônicos, os vapes, entre as gerações mais jovens.

Recuperação do organismo começa logo após o último cigarro

Embora muitos acreditem que após décadas de fumo a interrupção já não faça diferença, os benefícios de largar o cigarro convencional manifestam-se muito antes do que a maioria imagina. De acordo com a oncologista Christiane Pires, médica do Instituto de Oncologia de Sorocaba (IOS), interromper o hábito em qualquer fase da vida traz impactos reais e imediatos.

“No consultório, vemos isso na prática. Parar de fumar não muda apenas estatísticas. Muda qualidade de vida”, afirma a médica. Em poucas semanas, o pulmão inicia um mecanismo natural de restauração. “Os cílios pulmonares, que funcionam como um sistema natural de limpeza das vias aéreas e ficam prejudicados pelo cigarro, começam a voltar ao funcionamento normal. Isso melhora a proteção do pulmão e reduz infecções respiratórias”, detalha a oncologista.

Entre os principais benefícios da interrupção do tabagismo destacam-se:

  • Melhora imediata da circulação sanguínea;
  • Recuperação gradual da capacidade respiratória total;
  • Redução drástica do risco de infarto agudo do miocárdio e Acidente Vascular Cerebral (AVC);
  • Diminuição progressiva do risco de câncer (após 10 a 15 anos de abstinência, o risco de tumor pulmonar cai pela metade).

Vapes: a nova ameaça e o falso conceito de “fumaça limpa”

Se por um lado o combate ao cigarro tradicional avançou, por outro, os dispositivos eletrônicos ganharam espaço em ritmo acelerado, impulsionados por aromas adocicados, formatos tecnológicos e forte apelo nas redes sociais. No Brasil, o comércio, importação e publicidade desses produtos são integralmente proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas o acesso ilegal ainda é facilitado.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do IBGE, revelam que o percentual de estudantes entre 13 e 17 anos que já experimentaram o cigarro eletrônico saltou de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024. Já o consumo recente nos 30 dias anteriores à pesquisa saltou de 8,6% para 26,3%.

Especialistas alertam que a ideia de que o vape é inofensivo é um mito perigoso. “O surgimento dessa alternativa ‘moderna’ colocou décadas de combate ao tabagismo em xeque. Ainda não sabemos completamente quais serão os efeitos de longo prazo dos cigarros eletrônicos, mas já existem indícios preocupantes de que eles podem ser tão ou mais nocivos que o cigarro convencional”, alerta o oncologista William Nassib William Jr., líder nacional da especialidade de tumores torácicos da Oncoclínicas.

Alta concentração de nicotina e lesões pulmonares severas

Um dos fatores mais preocupantes é o alto potencial de dependência química. Muitos dispositivos utilizam sais de nicotina, permitindo uma absorção ultra-rápida. Segundo a Associação Médica Brasileira (AMB), um único vape pode equivaler à quantidade de nicotina presente em até um maço inteiro de cigarros convencionais.

“A nicotina não é diretamente responsável pelo câncer, mas é ela que provoca dependência. E esses dispositivos conseguem entregar concentrações extremamente elevadas da substância, fazendo com que o vício se estabeleça rapidamente”, explica o médico William William.

Além da dependência precoce, o uso de vapes está ligado a problemas respiratórios severos e agudos:

  • EVALI: Sigla em inglês para lesão pulmonar associada ao uso de cigarros eletrônicos, que pode levar a internações graves.
  • “Pulmão de Pipoca” (Bronquiolite Obliterante): Uma inflamação e fibrose irreversível dos bronquíolos, frequentemente causada pelo diacetil, composto usado para dar sabor aos líquidos aromatizados.
  • Substâncias Tóxicas: Ao contrário do que muitos pensam, o usuário não inala vapor de água, mas sim um aerossol contendo metais pesados (como níquel, chumbo e zinco) e elementos cancerígenos como formaldeído e acroleína.

Além disso, estudos apontam para o efeito reverso na cessação do tabagismo: pesquisas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) indicam que o cigarro eletrônico aumenta em mais de três vezes o risco de o jovem experimentar o cigarro tradicional posteriormente, reintroduzindo o hábito de fumar em uma geração que já crescia distante da nicotina. Diante da estimativa de 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil para o triênio 2026-2028, a conscientização e a fiscalização contra os vapes tornam-se o principal pilar das campanhas de saúde pública neste 31 de maio.

Fontes: Instituto de Oncologia de Sorocaba (IOS), Oncoclínicas&Co, IBGE, INCA e Associação Médica Brasileira (AMB). Imagem (Magnific) fornecida por Oncoclínicas