COTIA DEBATEU DANOS E IMPACTOS DO VÍCIO EM JOGOS E BETS EM ENCONTRO NA CÂMARA MUNICIPAL

Especialistas e representantes do poder público alertaram sobre os prejuízos da ludopatia às famílias e discutiram ações de prevenção, tratamento e legislação municipal.
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A facilidade de realizar apostas pelo celular, as promessas ilusórias de retorno financeiro rápido e a sensação de recompensa imediata a cada jogada escondem um problema crescente que afeta a estrutura de inúmeras famílias: a dependência em jogos de azar. O tema esteve no centro da palestra “Ludopatia: causas e danos“, promovida pela Secretaria de Trabalho e Renda na Câmara Municipal de Cotia.

O encontro reuniu gestores públicos e profissionais da saúde para analisar os mecanismos neurobiológicos que levam ao vício, os prejuízos financeiros, sociais e psicológicos provocados pelas apostas e as diretrizes necessárias para a prevenção e o acolhimento das vítimas.

A ludopatia é clinicamente classificada como um transtorno comportamental caracterizado pela prática persistente e descontrolada do jogo, mesmo diante de graves consequências negativas. Com a proliferação das plataformas digitais de apostas esportivas e cassinos virtuais — as chamadas bets —, o acesso tornou-se contínuo e imediato.

Na abertura dos trabalhos, o secretário de Trabalho e Renda, Michel Alves, alertou sobre a desestruturação dos lares quando recursos destinados à sobrevivência básica são desviados para as apostas. “É um vício que arruína famílias. Estamos vendo pessoas se endividando e situações extremas provocadas pelo jogo. Precisamos falar sobre isso e também nos perguntar se estamos preparados para lidar com o crescimento e a regularização das bets”, ressaltou.

O ciclo da dependência e a saúde mental

A secretária da Mulher, Direitos Humanos e Neurodiversidade e psicóloga, Solange Aroeira, enfatizou que as dependências assumem múltiplos formatos e que o usuário nunca inicia a prática prevendo a perda do controle. Segundo a titular da pasta, o ambiente digital potencializou esse risco:

“Ninguém começa a apostar achando que vai se tornar dependente. Começa tentando a sorte. O problema é quando o prazer vira dependência. Ganhar provoca uma sensação de prazer; perder pode estimular uma nova tentativa para recuperar o dinheiro, criando um ciclo difícil de interromper”, explicou Solange, defendendo que a prevenção e o cuidado com a saúde mental sejam tratados como políticas públicas prioritárias.

Conduzindo a exposição técnica, a psicóloga Evenyn Uchôa utilizou um estudo de caso para demonstrar como o vício se instala gradativamente, afetando diferentes perfis sociais. Ela explicou que o jogo ativa os circuitos cerebrais ligados ao sistema de recompensa, à tomada de decisão e ao controle de impulsos.

Evenyn também alertou sobre a influência da publicidade digital e de criadores de conteúdo: “Para quem você está dando palco? Onde você está clicando? Todos somos vulneráveis, mas algumas pessoas apresentam fatores que aumentam essa possibilidade”, pontuou a especialista, lembrando que quadros prévios de ansiedade, depressão, TDAH e estresse financeiro ampliam a vulnerabilidade ao vício.

Impacto na assistência social e projeto de lei municipal

A presidente do Fundo Social de Cotia e chefe de gabinete do vice-prefeito, Gleides Sodré, relatou que os reflexos negativos das apostas já atingem diretamente a rede socioassistencial do município, com famílias que perdem o sustento e passam a depender de doações de cestas básicas:

“O dinheiro que deveria atender às necessidades da família está indo para o jogo e depois essas pessoas precisam buscar cesta básica. O jogo está afetando as famílias, os seus esteios, os amores da vida da gente. Precisamos acordar para esse tema”, declarou Gleides.

Diante do cenário, o chefe de gabinete do prefeito, Edgar de Souza, informou durante a reunião que o Executivo trabalha na elaboração de uma proposta de projeto de lei voltada à regulamentação e restrição da publicidade de plataformas de apostas no âmbito municipal.

Rede de atendimento e tratamento no município

Representantes do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) frisaram que o município oferece suporte clínico especializado, incluindo o grupo temático “Sorte e Azar”. As profissionais Priscila e Juliana relataram que o preconceito e a demora no reconhecimento do transtorno ainda representam barreiras para a manutenção do tratamento. O projeto Viva Bem, da Casa União Lar Sama, também participou do debate com orientações sobre capacitação e alternativas saudáveis de rotina.

Onde buscar ajuda em Cotia:

  • CAPS AD (Álcool e Drogas): Rua Topázio, 318 – Jardim Nomura.

PESQUISA REVELA QUE 56% DOS BRASILEIROS APOIAM PROIBIÇÃO DE PLATAFORMAS DE BETS NO PAÍS

A maioria da população brasileira apoia a proibição total das casas de apostas online no país. De acordo com a pesquisa “Mulheres & Bets”, realizada pelo Estúdio Clarice em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto Ideia, 56% dos brasileiros defendem o banimento dessas plataformas. Entre o público feminino, a adesão à proibição alcança 62%, enquanto entre os homens o índice é de 50%.

O levantamento revelou que 49% da população adulta do país já realizou apostas online ao menos uma vez (56% dos homens e 42% das mulheres). Entre as mulheres, o impacto é acentuado: 54% delas apostam regularmente ou possuem um familiar direto dependente do jogo.

Ao contrário do público masculino, cujo foco recai sobre apostas esportivas, 48% das mulheres concentram-se em cassinos virtuais, como roletas e o popular “jogo do Tigrinho”. A busca por renda complementar para quitar despesas básicas (16%), pagar dívidas (11,5%) ou obter dinheiro rápido (19%) figura entre as principais justificativas para o ingresso na atividade, impulsionado sobretudo pela divulgação em redes sociais e recomendações de pessoas próximas.

O estudo apontou ainda que 70% dos entrevistados desconhecem as ferramentas públicas de proteção vigentes, a exemplo do mecanismo federal de autoexclusão de CPF disponibilizado pelo Ministério da Fazenda para bloquear o acesso a sites autorizados. Apenas 13% das mulheres que apresentaram problemas com o jogo procuraram atendimento médico ou psicológico especializado.

Fontes: Secretaria de Comunicação Social da Prefeitura de Cotia (SCS/PMC) /Estúdio Clarice / Estratégia Latina / Ideia Imagem –  Juliano Barbosa