BETS DISPARAM INADIMPLÊNCIA, COMPROMETEM ORÇAMENTO DOMÉSTICO E LEVAM BANCOS A CORTAR CRÉDITO DE APOSTADORES

O avanço desenfreado das plataformas de apostas eletrônicas e cassinos virtuais no Brasil já cobra uma conta pesada do bolso do consumidor. Novos levantamentos econômicos e de comportamento revelam que o hábito de apostar está diretamente associado ao aumento da inadimplência, ao atraso crônico de contas essenciais e a uma forte retração na oferta de crédito bancário — efeito comparável ao sofrido por trabalhadores demitidos em processos de corte coletivo.
De acordo com o estudo Online Betting and Financial Distress: Evidence from Brazil, conduzido por pesquisadores do Insper e da empresa de tecnologia financeira Stone com base em dados de milhões de correntistas cruzados com o Banco Central, o impacto surge rapidamente. Nos 12 meses seguintes à primeira aposta, a taxa de inadimplência entre os jogadores ficou 20% acima da registrada no grupo comparável de pessoas que não apostam.
O estrago nas finanças atinge em cheio o cartão de crédito: o volume de faturas com pagamento em atraso cresceu, em média, 38,7% no primeiro ano de apostas. A pesquisa revelou ainda que um em cada dez apostadores transfere mais de 20% de todos os recursos que movimentam na conta bancária mensalmente para as plataformas, via Pix. O levantamento também derrubou a ilusão do ganho fácil: nos primeiros seis meses de atividade, 82,5% dos jogadores não receberam nenhum retorno financeiro e 90,8% acumularam prejuízo absoluto, perdendo mais dinheiro do que retiraram.
Corte bancário e impacto em jovens
A deterioração das contas não passa despercebida pelo sistema financeiro. Os bancos já identificam os fluxos contínuos destinados aos CNPJs de operadoras de apostas e reagem limitando a exposição ao risco. Conforme os dados, quem começa a apostar sofre uma redução média de 16% no limite de crédito e empréstimos disponíveis. O corte aproxima-se dos 20% de perda observados historicamente entre trabalhadores que perdem seus empregos em demissões em massa.
O estudo aponta ainda que os efeitos tendem a ser ainda mais severos entre o público jovem nacional, estrato que costuma destinar uma fatia maior de sua renda às apostas, mas que estava sub-representado na base de correntistas analisada. Para os economistas responsáveis pelo levantamento, a atual alíquota de 13% sobre a receita bruta das empresas de apostas (GGR) é ineficaz para refrear os danos financeiros causados pelas plataformas, defendendo maior rigor regulatório sobre modalidades contínuas, como os jogos de cassino online.
53% já atrasaram contas básicas para apostar
O reflexo prático dessa dinâmica dentro dos lares brasileiros foi corroborado pela pesquisa “Pulso | Apostas 2026”, realizada pelo Instituto Hibou com mais de 2,4 mil pessoas em todo o país. O diagnóstico mostra que 53% dos apostadores admitem já ter deixado de pagar alguma conta básica em dia para realizar apostas (28% relataram recorrência no comportamento e 25% apontaram caso isolado).
Além dos atrasos, as compras do mês também acabam comprometidas: 45% dos entrevistados afirmaram ter reduzido gastos essenciais da casa em algumas ocasiões para manter as apostas. Embora a maioria dos valores apostados seja pulverizada em quantias de até R$ 50 por rodada (60% dos casos), a alta frequência e a promessa de dinheiro rápido — principal motivação citada por 47% do público — mantêm o usuário em um ciclo de comprometimento financeiro.
O levantamento do Hibou apontou ainda que 80% dos apostadores têm plena consciência de que o hábito pode se transformar em vício, enquanto 15% reconhecem de forma expressa que o jogo já fugiu do controle, afetando negativamente seu bem-estar financeiro ou emocional. Com cerca de 25 milhões de praticantes estimados pelo Ministério da Fazenda, analistas alertam que o fenômeno das bets deixou de ser apenas uma questão individual e passa a atuar como um freio macroeconômico, drenando a capacidade de consumo e endividando a população.
Fontes: Insper / Stone / Banco Central / Instituto Hibou / Folha de S.Paulo / TVT News / Imagem Tânia Rego-AB


