ENCHENTES: COMO DIMINUIR ALAGAMENTOS E INUNDAÇÕES EM COTIA

Acompanho o desenvolvimento de Cotia desde o início da década de 1980, quando fui convidado pelo prefeito Ivo Mário Isaac Pires, por intermédio de seu filho Mauro Isaac Pires, para integrar o governo — a princípio como assessor e, depois, como primeiro Secretário de Governo do município. Entre 2008 e 2016, fui Secretário de Obras e Serviços (com um breve intervalo de um ano e meio entre 2010 e 2012 para assumir a Secretaria de Saúde), pasta que abrangia inicialmente Meio Ambiente e Habitação, desmembrados em 2009, quando permaneci apenas à frente de Obras e Serviços.
Antonio Melo, da redação
Posso afirmar, com segurança, que, assim como muitos outros, acompanhei o crescimento de Cotia e assisti — na maior parte das vezes sem poder intervir — à ocupação desordenada que, aos poucos, suprimiu nascentes, canalizou indevidamente córregos e falhou na fiscalização necessária às margens desses cursos hídricos e do próprio rio Cotia. Da mesma forma, faltou rigor na fiscalização da implantação de condomínios e núcleos habitacionais, os quais foram, gradativamente, impermeabilizando o solo do município e fazendo com que mais águas pluviais escorressem diretamente para o seu destino final: o rio Cotia, foz natural de cada fio de água do município.
Hoje, assiste-se a alagamentos e inundações em toda a cidade, sem que haja uma fórmula mágica que de imediato os elimine. A diferença fundamental reside na origem da água: a inundação decorre do transbordamento de rios, córregos ou canais, ao passo que o alagamento resulta da falha ou incapacidade do sistema de drenagem urbana em escoar a água pluvial acumulada na superfície.
Durante o período em que estive à frente da Secretaria de Obras, um dos desafios primordiais foi exatamente o enfrentamento a tais inundações e alagamentos. Logo em 2009, ao assumir a pasta, precipitações torrenciais atípicas atingiram Cotia, deixando a cidade literalmente debaixo de água. Em um único dia, nosso Gabinete de Controle Permanente (não existia a denominação “Gabinete Climático”) registrou 78 ocorrências simultâneas, combatidas com determinação pelas equipes de Obras e da Defesa Civil — então coordenada por Hintz Brandão Deiroz —, com o apoio das secretarias de Promoção Social, Habitação e Saúde. Os recursos eram escassos e a operação, complexa.
Por volta do biênio 2010/2011, ocorreu a renovação do contrato de concessão com a Sabesp, ocasião em que o então prefeito Carlão Camargo exigiu contrapartidas em infraestrutura urbana. Foi nesse contexto que intervenções estruturais foram viabilizadas: substituíram-se as pontes do Jardim Sandra, do Rio Cotia na Estrada da Pedreira, do Centro de Treinamento do São Paulo Futebol Clube e do Jardim Panorama; concluíram-se as intervenções iniciais na Rua do Cristo; desassoreou-se e retificou-se o curso do córrego Caucaia, que atravessa a área central do distrito; e promoveu-se a limpeza e desassoreamento do córrego do Jardim Central (Coruja). Foram executadas inúmeras intervenções de desassoreamento preventivo, a ponto de, na transmissão de mandato ao prefeito Rogério Franco, restarem diagnosticados apenas sete pontos vulneráveis onde a ocorrência de retenção de água demandava correção final.
Hoje, decorrida uma década, Cotia transformou-se: expandiu-se, tornou-se mais adensada e sensivelmente mais impermeabilizada. O debate público e as manifestações nas redes tendem comumente a atribuir a totalidade das ocorrências ao fenômeno “El Niño” — afinal, trata-se de justificativa conveniente por influenciar a dinâmica climática global.
A CULPA NÃO É DO “EL NIÑO” – É DO DESCASO E DA FALTA DE VISÃO
Atribuir a responsabilidade ao El Niño ignora a raiz técnica do problema; podem-se estruturar sucessivos gabinetes emergenciais de enfrentamento, mas a oscilação climática continuará a se manifestar ao longo da história humana.
Afinal, o fenômeno climático — que engloba as fases quente (El Niño) e fria (La Niña) — atua no planeta há pelo menos 250 milhões de anos, desde o período Triássico. O padrão cíclico contemporâneo (com intervalos de 2 a 7 anos) consolidou-se há cerca de 5.000 a 7.000 anos, durante o Holoceno Médio.
O batismo formal no século XIX decorreu da observação prática de pescadores peruanos (registro formalizado pela Sociedade Geográfica de Lima por volta de 1892), os quais notaram que, em determinados anos, as águas litorâneas habitualmente frias sofriam aquecimento ao final de dezembro, afastando os cardumes. A designação (“O Menino”) configurou alusão direta ao Menino Jesus, em virtude do período natalino.
A contenção e o controle de inundações e alagamentos não são tarefas inviáveis, até porque o núcleo do escoamento regional repousa no Rio Cotia, que atualmente se encontra sem a devida manutenção. O último diagnóstico hidrológico e programa consistente de desassoreamento parcial em sua calha remontam ao ciclo 2010/2011, quando se retirou expressiva carga de sedimentos, detritos e sucatas descartadas em seu leito. Cabe indagar em que condições de assoreamento e vazão sua seção transversal opera nos dias atuais…(CONTINUA AMANHÃ)
Da redação. Imagem: Conselheiro do São Paulo, José Roberto Canassa, alalgamento do C.T. do S.Paulo, Facebook.





