O OBRIGATÓRIO DESASSOREAMENTO DO RIO COTIA – PARTE 4: AS ÁGUAS NÃO DEVEM E NÃO PODEM REFLUIR

Antonio Melo
Tudo o que escrevemos aqui tem como base os levantamentos citados no artigo anterior e as suas respetivas fontes oficiais. Quem sofre com as enchentes sabe perfeitamente que isto é a realidade e sente na pele o momento em que os córregos — habitualmente mansos e que tantas vezes conduzem apenas esgoto — sobem repentinamente de nível, invadem residências, destroem mobílias, inutilizam documentos e põem em risco idosos, pessoas acamadas e crianças.
Nesse instante crítico, as autoridades mobilizam-se: acionam a Defesa Civil, o Corpo de Bombeiros e as mais diversas secretarias; organizam postos de vacinação e disponibilizam abrigos provisórios para os desalojados. Todavia, nem a administração mais diligente consegue restituir tudo o que se perdeu. É impossível resgatar as memórias que a água levou em fotografias antigas, cadernos e objetos de valor sentimental; é impossível recuperar os animais de estimação levados pela força da correnteza. É toda uma história de vida que se esvai.
Em Cotia, conforme referi anteriormente, realizou-se um relevante trabalho de infraestrutura durante a gestão do ex-prefeito Carlão Camargo (2009–2016), com a implantação de aduelas em pontos nevrálgicos. Ainda assim, ficou muito por fazer, pois não se retificam décadas de ocupação desordenada em apenas oito anos.
Um dos casos mais emblemáticos é o córrego da Rua do Cristo, na altura do quilómetro 21 da Rodovia Raposo Tavares. Ao passar sob as pistas da rodovia, o caudal que o córrego recebia era naturalmente amortecido pelo antigo lago do Recreio 21 — de que muitos decerto se recordam. As águas pluviais ficavam ali retidas e escoavam de forma gradual, permitindo que a calha suportasse o volume sem transbordar.
Com o esvaziamento indevido desse reservatório natural, as águas provenientes da Raposo Tavares, do município vizinho de Osasco e das vias dos Jardins Santa Maria, Santa Isabel e bairros limítrofes perderam a área de retenção. Sem vazão suficiente, começaram a inundar sistematicamente as casas construídas ao longo da Rua do Cristo.
Em parceria com as esferas estadual e federal, a administração municipal procedeu à substituição das antigas tubulações por aduelas de secção ampla. No entanto, verificou-se aí uma regra basilar da hidráulica: não adianta acelerar o escoamento a montante se a jusante o canal recetor não estiver preparado para receber essa carga.
E foi exatamente o que sucedeu. Os alagamentos diminuíram em frequência e intensidade, mas não cessaram. Quando as águas atingem a divisa entre Cotia e Osasco, na Estrada Sítio do Ribeirão, deparam-se com uma ponte antiga, dimensionada há várias décadas, que provoca um estrangulamento da secção útil do canal a partir do ponto em que o curso entra em território osasquense.
Estando a ponte subdimensionada e o leito do córrego assoreado a partir desse ponto, o volume vindo da rodovia e dos bairros vizinhos sofre um refluxo inevitável, invadindo novamente as habitações. Durante dois mandatos procurou-se firmar um convénio tripartite — entre o Governo do Estado, Cotia e Osasco — para alargar e substituir aquela ponte e, em paralelo, desassorear e alargar o leito até à foz no Rio Cotia, garantindo a vazão necessária.
Apesar de todas as diligências encetadas pelo ex-prefeito Carlão Camargo, tal articulação não avançou. Aquele ponto permanece como um dos estrangulamentos que exigem intervenção urgente por meio de dragagem e reconstrução da travessia. Como se constata, a intervenção técnica é viável, mas depende — e sempre dependeu — de real vontade política e cooperação intermunicipal. O mesmo diagnóstico repete-se noutros pontos do município, temas que abordaremos na sequência.
Mencionámos até aqui as enchentes e inundações, mas importa agora aprofundar a questão dos alagamentos urbanos. Conforme definimos no início desta série, as inundações resultam do transbordamento direto de rios, córregos e canais, ao passo que os alagamentos derivam da insuficiência, estrangulamento ou ausência de manutenção nos sistemas locais de drenagem urbana pluvial.
Trataremos especificamente das causas e soluções para os alagamentos urbanos na nossa próxima publicação.
Fontes Técnicas Utilizadas: DAEE / SP Águas; CBH-AT (Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê); Departamento de Obras e Serviços Urbanos de Cotia; Registos Técnicos de Cooperação Intermunicipal Cotia-Osasco.
IMAGEM: Moradores enfrentam rua completamente tomada por enchente no Jardim Nossa Senhora das Graças, em Cotia; acúmulo de água pluvial e estrangulamento da drenagem evidenciam os desafios da infraestrutura urbana no município. Crédito: Foto: Reprodução / Aconteceu em Cotia e Região (Instagram)




