OSASCO: PREFEITURA DESCARTA ACERVO HISTÓRICO EM CAÇAMBAS DE LIXO

Na semana em que se celebra mundialmente o valor da literatura, milhares de exemplares da Biblioteca Monteiro Lobato são jogados fora sob alegação de contaminação; moradores e escritores contestam decisão.
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Ironia trágica ou descaso administrativo: exatamente na semana seguinte à celebração do Dia Mundial do Livro (23 de abril), a cidade de Osasco tornou-se palco de uma cena que chocou educadores e moradores. Centenas de livros da Biblioteca Pública Monteiro Lobato foram flagrados sendo descartados em caçambas de lixo, gerando uma onda de revolta na comunidade.

O Acervo da Memória no Lixo

Imagens divulgadas pela mídia local e pela TV Globo mostram milhares de exemplares — incluindo obras de autores locais, livros de poesia e coleções antigas de jornais — entulhados entre restos de materiais. A perda é considerada inestimável por profissionais da educação, como a professora Juliana Gomes Curvelo, que ressalta que o acervo foi construído inteiramente por doações ao longo das décadas.

“Livro não fica ultrapassado, livro está sempre vivo”, afirmou o escritor e professor Ricardo Aparecido Dias, que lamentou a destruição de obras de autores osasquenses já falecidos, cuja recuperação é impossível.

Justificativas sob Suspeita

A Prefeitura de Osasco justificou a medida alegando que os itens estavam contaminados por fungos e mofo. No entanto, a explicação não convenceu a população por alguns motivos centrais:

  • Falta de Laudos: A administração municipal não apresentou avaliações de especialistas em conservação ou saúde que atestassem a contaminação.
  • Resgate Popular: Moradores conseguiram retirar livros das caçambas e afirmaram que, embora pudessem ter cheiro de guardado, não estavam em estado de deterioração.
  • Abandono Prévio: A biblioteca está fechada desde 2020 e o acervo teria ficado confinado sem manutenção adequada desde o início da pandemia.

Obras Atrasadas e Investimento Milionário

A situação da Biblioteca Monteiro Lobato é agravada por um histórico de promessas não cumpridas:

  1. Reforma Interrompida: Uma obra anunciada em setembro de 2023 deveria ter sido entregue em fevereiro de 2024, mas o prédio segue inacessível.
  2. Novo Contrato: Em março de 2026, um novo contrato de mais de R$ 1,5 milhão foi firmado para serviços de manutenção, mesmo com a intervenção anterior inacabada.
  3. Falta de Transparência: No local das obras, não há placas com informações sobre prazos ou o andamento dos trabalhos.

O Contraste Regional

Enquanto outras cidades do estado investem na modernização e digitalização de seus acervos, o caso de Osasco levanta um alerta sobre a gestão do patrimônio cultural. Antes do fechamento, a biblioteca chegava a atrair duas mil pessoas mensalmente, funcionando como um polo vital de inclusão digital e eventos culturais.

Ativistas e cidadãos seguem mobilizados, cobrando uma postura clara da prefeitura sobre a reposição dos livros e a reabertura imediata do espaço.

Fontes: Patricia Russo (25/04/2026); Isadora Markus, TV Globo (25/04/2026).