DIABETES TIPO 2: O QUE HÁ DE NOVO NO CUIDADO E NAS RECOMENDAÇÕES

Hoje, tratar diabetes é cuidar do corpo todo, não só do número da glicose. Veja as recomendações de médico especialista e Chefe da seção médica de cardiogeriatria do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia
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Dr. Felício Savioli Neto · Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia (IDPC), São Paulo

Por que esse assunto importa

O diabetes tipo 2 é muito comum e está crescendo. Segundo o Vigitel, 12,9% dos adultos das capitais brasileiras relataram diagnóstico de diabetes em 2024, contra 5,5% em 2006. A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) estima que cerca de 20 milhões de brasileiros vivam com o tipo 2.

Muita gente tem a doença sem saber. Pelo Atlas da Federação Internacional de Diabetes, quase 45% dos adultos com diabetes desconhecem o diagnóstico. Por isso as novas recomendações começam pela detecção precoce.

  1. Descobrir mais cedo

Rastreamento a partir dos 35 anos. A diretriz brasileira de 2025 recomenda rastrear todo adulto sem sintomas acima de 35 anos, e também quem já teve pré-diabetes ou tem pontuação alta em um questionário de risco (o FINDRISC). Abaixo dessa idade, o exame vale para quem tem sobrepeso ou obesidade associados a outros fatores de risco, como histórico familiar, hipertensão ou triglicerídeos altos.

Crianças e adolescentes também entram. O  diabete tipo 2 vem crescendo entre os jovens, em parte pelo consumo de ultraprocessados e pelo sedentarismo, e a diretriz traz recomendações a partir dos 10 anos.

Um exame novo no radar. A diretriz incorpora o teste oral de tolerância à glicose com duração de uma hora, apontado como mais barato, mais simples e mais sensível para identificar quem tem pré-diabetes. A glicemia de jejum e a hemoglobina glicada continuam sendo os principais exames de triagem.

  1. Tratar além do açúcar no sangue

A atualização da diretriz da Sociedade Brasileira de Diabete, apresentada em agosto de 2026, orienta o médico a perseguir três objetivos desde o diagnóstico: controlar a glicemia, combater o excesso de peso e reduzir os riscos cardiovasculares e renais.

Na prática, o remédio é escolhido de acordo com a pessoa: o peso, o coração, os rins e a idade. Ganham prioridade as classes com benefício comprovado no coração e nos rins: os inibidores de SGLT2 (como empagliflozina e dapagliflozina) e os agonistas de GLP-1 (como semaglutida, liraglutida e dulaglutida). Isso não significa que a metformina e outros remédios deixaram de ter lugar. A escolha é individual.

A diretriz americana segue a mesma linha. A Associação Americana de Diabetes (ADA), em seus Standards of Care 2026, dá mais ênfase às características clínicas de cada pessoa do que apenas à hemoglobina glicada. Também discute os efeitos dos remédios sobre coração, rins e fígado, e não só sobre a glicose.

Rins. Para quem tem diabetes tipo 2 e doença renal, a ADA considera iniciar juntos um inibidor de SGLT2 e um outro tipo de protetor renal em situações específicas. Já os agonistas de GLP-1 podem ser considerados em quem tem diabetes tipo 2 e doença renal crônica.

  1. Tecnologia mais cedo

Sensores de glicose. São aparelhos que medem a glicose continuamente, sem furar o dedo toda hora. Em 2026, a ADA passou a recomendar o sensor também para idosos com diabetes tipo 2 que usam insulina, para melhorar o controle, reduzir hipoglicemias e diminuir o peso do tratamento.

Sistemas automáticos de insulina. Os sistemas de insulina automatizada, antes ligados quase só ao diabetes tipo 1, devem ser oferecidos a adultos com tipo 2 que usam insulina. No Brasil, o acesso a essas tecnologias ainda depende muito de custo e de cobertura.

  1. Alimentação e hábitos continuam sendo a base

Remédios novos não substituem o básico. A ADA recomenda padrões alimentares como o estilo mediterrâneo e a dieta com menos carboidratos para prevenir o diabetes tipo 2. Em termos simples:

  • Priorize comida de verdade (legumes, verduras, frutas, grãos integrais, feijão, peixe e azeite) e reduza ultraprocessados e bebidas açucaradas.
  • Movimente-se com regularidade, combinando caminhada ou outro exercício aeróbico com exercícios de força.
  • Perda de peso, mesmo moderada, melhora muito o controle.
  • Durma bem e evite o cigarro.
  1. O que fazer com essas informações
  1. Se você tem 35 anos ou mais e nunca fez exames de glicose, converse com seu médico sobre o rastreamento.
  2. Se já tem diabetes, pergunte se o seu tratamento considera também seu peso, seu coração e seus rins, e não só a glicemia.
  3. Não pare nem troque remédios por conta própria. Cada tratamento depende do seu caso.
    1. Procure ajuda se tiver sede excessiva, urinar muito, emagrecer sem motivo, sentir cansaço intenso ou tiver feridas que demoram a cicatrizar.

    Dr. Felício Savioli Neto é médico cardiologista, Doutor em ciências da Saúde pela Faculdade de medicina da USP e Chefe da seção médica de cardiogeriatria do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia